Voyeur da alegria

Nunca fui de brincar carnaval. Sempre me faltou espontaneidade para aderir ao torvelinho da massa, cantar e dançar com faz a maioria. Tem gente para quem os acordes de Vassourinhas soam como uma faísca elétrica, um toque de despertar que acende espasmos no corpo.

Infelizmente, não sou assim. Talvez por isso desenvolvi uma envergonhada inveja dos que conseguem entrar na folia (que etimologicamente significa “loucura”). De onde vem esse élan dionisíaco, que os faz entregarem-se com tanta espontaneidade à música e a dança? Não há resposta. É coisa de cada um. Enquanto uns se animam mesmo sem álcool, outros preferem observar a alegria alheia.

Isso não significa que gente como eu não sinta as vibrações do carnaval. A inaptidão física para os pinotes e saracoteios nos faz enrustidos, mas não indiferentes. Há até uma vantagem nesse comedimento: ele dá um tempero nostálgico à festa e, com isso, revela-lhe a dimensão estética. Como nos alheamos da ação – já que somos voyeurs da alegria –, apuramos nosso senso contemplativo.

O problema é que essa visão é às vezes distorcida por uma concepção romântica do evento. Imaginamos paixões fugazes, súbitos encontros com odaliscas pálidas. Procuramos uma essência que o movimento concreto dos corpos suados, ali diante de nós, só faz desmentir. Como vislumbrar nessa profusão de nádegas frenéticas o rosto magoado de Colombina? Como, nestes tempos de camisinha profilática, viver um autêntico amor de carnaval?

A verdade é que procuramos não o carnaval real, mas uma imagem que nossa inaptidão para a folia nos ensinou a cultivar. Mas quem não procura isso? Os que sem dificuldade aderem à festa também estão, em alguma medida, em busca do sonho. De um nirvana etéreo, ou antes etílico, alimentado por um ideal.  

O que muda é a forma de vivenciar a alegria. Uns se entregam com o corpo, outros só com o espírito. No fim todos nos deparamos com a Quarta-Feira de Cinzas, que é o vestíbulo para mais um ano de trabalhos e penas.

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