Votar ou não votar?

Ninguém viverá hoje esse dilema, pois entre nós votar é obrigatório. No máximo, alguns vão se dividir entre anular ou não o voto. Com essa onda de desencanto produzida pelos ventos da corrupção, é possível que muitos escolham essa forma calada e raivosa de protesto. 

Fizeram isso uma vez no Rio, elegendo um tal de macaco Tião. Hoje uma estratégia como essa é impossível. Primeiro, por causa da urna eletrônica, que não nos permite escrever nada. Segundo, porque nos falta alguém bizarro e folclórico em quem votar. 

A maioria dessas figuras, como nos mostrou a propaganda gratuita na TV, preferiu mesmo se constituir em opção oficial. Isso nos deixou meio desarvorados. Num país em que palhaços se fazem de sérios, os sérios terminam se sentindo meio palhaços. 

É fácil entender o desencanto e o ceticismo que grassam por aí, mas anular o voto está longe de ser a melhor solução. Com isso, despreza-se uma oportunidade à qual somente quem viveu sob uma ditadura sabe dar o devido valor. A minha geração viveu. Sofreu a angústia de ver o título amarelecer na gaveta enquanto uns poucos, com o instrumento do arbítrio e da força, decidiam sozinhos os rumos que o País devia tomar. 

Hoje nos dão a oportunidade de participar dessa decisão. O fato de a  participação ser pequena, talvez ínfima, só confirma a evidência de que é preciso multiplicar esse gesto. É preciso estendê-lo ao maior número possível de pessoas, para que ele produza efeito. Cada dedo que se nega a apertar a tecla da urna eletrônica é um fio a menos na delicada tessitura da democracia. 

Ouço pessoas dizerem: “Não vou votar em ninguém. Não existe candidato que preste!”. A impossibilidade da escolha perfeita não faz parte apenas do universo político. Aparece na profissão, na família, no amor. Negar-se a votar porque não existe o candidato perfeito equivaleria a ficar solteiro por não se encontrar a mulher ideal. 

Quando somos adolescentes, cultivamos a idéia de que essa mulher existe. À medida que ficamos adultos, vamos substituindo tal miragem pela procura da mulher real e possível. Deixar de votar porque não existe candidato ideal é uma espécie de regressão aos devaneios da adolescência. É sinal de uma consciência política que não amadureceu.

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