Vida urgente

Ligo para o amigo Dantas a fim de lhe desejar um feliz aniversário. Conversamos trivialidades, até que surge a observação infalível em circunstâncias como essa: o tempo vem passando muito rápido. Ainda ontem comemorávamos o Natal…

Foi um filósofo francês chamado Henri Bergson quem apontou a diferença entre tempo e duração. Segundo ele, o tempo é objetivo, imperturbável, e se desenvolve num ritmo só. Já a duração varia conforme a percepção que temos do tempo. De acordo com o nosso estado emocional e afetivo, um evento pode se tornar mais longo ou mais curto. 

Faça o teste, leitor. Que hora custa mais a passar? A de um passeio no shopping com a namorada, ou a de uma aula, por exemplo, sobre polinômios complexos? Pode haver minutos mais longos do que esses da propaganda eleitoral gratuita? Não é à toa que escolhemos mal nossos políticos; fazemos isso chateados, entre longuíssimos bocejos.

O conceito de duração nos confirma a relatividade do tempo aplicada a outro universo. Não o universo exterior, de Einstein, feito de estrelas, galáxias e buracos negros – mas o que temos dentro de nós. Também em nosso espírito as coisas transcorrem arrastadas ou num clarão, dependendo de como elas nos afetam em termos de prazer ou desprazer.  

Na conversa com meu amigo, ninguém falou em ansiedade. Mas essa palavra é a que melhor traduz a sensação de que o mundo caminha muito rápido. O computador, a globalização, a busca da eficiência produtiva esporeiam nossos neurônios e despertam-nos a impressão de que tudo tem de ser já, agora. É isso que nos faz ansiosos.  

A melhor definição de ansiedade não encontrei em livro de psicologia, mas numa passagem de Clarice Lispector: “É uma pressa por dentro”. Vivemos interiormente apressados, no afã de ir não sei aonde e alcançar não sei o quê. 

Falamos sobre essas coisas, eu e Dantas, no breve telefonema de confraternização natalícia. Muito breve, por sinal. Cada um tinha que cuidar da sua agenda.

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