Uma reedição oportuna

Por mais que a obra não seja um reflexo direto do autor, é grande a tendência de se confundir uma com o outro. Isto se aplica particularmente a um poeta como Augusto dos Anjos, cujas idiossincrasias pessoais e literárias sempre despertaram curiosidade nos que estudam ou simplesmente apreciam seus poemas. O pessimismo, a morbidez, a fixação na morte, presentes na maioria dos seus versos, fazem pensar que ele era um desses misantropos infensos aos apelos mundanos. Tal impressão é acentuada pelas imagens de doença e deterioração física, comumente associadas a um possível “caso clínico” do indivíduo e não ao universo simbólico do poeta.

Um dos objetivos de “Augusto dos Anjos e sua época” é desfazer, ou pelo menos amenizar, equívocos desse tipo. Seu autor pretende mostrar que ao lado do Augusto sombrio existiu outro permeável à alegria, que perambulava pelas calçadas da província e exaltava em quadrinhas ligeiras a beleza das mulheres. Esse alter ego contrasta com o do melancólico para quem “a alegria é uma doença”, e a tristeza, “(sua) única saúde”.

Humberto Nóbrega trata de vários aspectos da época em que o paraibano viveu, mas se concentra na produção do poeta no jornalzinho “Nonevar”, que circulou por ocasião da Festa das Neves. Ela se constitui de versos despretensiosos, nos quais se percebe que Augusto não se manteve alheio ao clima daquelas noites. Conforme observa o autor, ele “perambulou pelas calçadas onde os divertimentos se apresentavam. Frequentou os bares improvisados. Observou. Inspirou-se”.

Além desses jornaizinhos, o autor recolheu as cartas que o poeta mandava para sua mãe. São textos importantes para se compreender a personalidade de Augusto, cuja assiduidade nos escritos, enviados em períodos muito curtos de tempo e marcados por um cuidado reverente e formal, demonstra uma sensibilidade marcada pela ambiguidade afetiva e pelo remorso. Esses traços emocionais aparecerão, em alguns de seus poemas, transfigurados em vigorosas imagens de ruína, doença e desconstituição da matéria.

Os textos veiculados no “Nonevar” consistem, no todo, de crônicas, poemas, perfis, quadras amorosas e comerciais que documentam os costumes de uma época e mostram como nela se inseria o homem Augusto dos Anjos. Tal inserção não poderia deixar de ser dramática, embora o tipo de conflito estivesse longe de se parecer com o que se percebe em seus versos ditos sérios. O remorso, por exemplo, não tem a dimensão da Culpa por uma humanidade viciada, que violou as leis da Natureza; resume-se, por exemplo, ao mal-estar de ter que escrever por dinheiro. Em uma das cartas dirigidas à mãe, o poeta faz a ressalva de que o “Nonevar” “através do pretexto literário que o recomenda, esconde intuitos puramente financeiros.”. Adiante, como que se justificando (talvez mais para si do que para ela), afirma que a colaboração lhe permitirá “recolher às (suas) arcas particulares de bacharel necessitado alguma pecúnia consoladora.”.

Humberto Nóbrega é mais um historiador do que um crítico literário. Seu objeto não são propriamente os versos do poeta, mas determinados tipos e circunstâncias com que ele se relacionou e que, de alguma forma, serviram para modelar o seu espírito. O autor recolheu, num lento e obstinado trabalho de pesquisa, recortes de jornal, depoimentos de amigos e parentes, opiniões de críticos e escritores, compondo uma miscelânea que, em maior ou menor grau, serve de subsídio para que se compreenda o momento em que Augusto viveu. Seu método lembra o de um autor de história das mentalidades, para quem nada é irrelevante; o detalhe aparentemente frívolo pode ser um indício para a compreensão de algum aspecto relevante.

Seria inexato dizer que a produção poética recolhida por Humberto Nóbrega é mais importante pelo que diz do homem Augusto do que pelo que revela da sua obra. Conforme já tivemos oportunidade de escrever, ela testemunha “quanto certas ideias ou imagens lhe obsediam a consciência. É como se o autor variasse de tema, ou mais propriamente de contexto, voltando-se para o lado superficial da vida; mas preservasse, com voluntária ‘inadequação’, vocábulos, imagens e construções que lhe serviram para expressar o amargor, a melancolia, a intensidade da sua angústia ética e existencial. Sobretudo nos poemas longos, com que introduz as colaborações de cada ano, o poeta parece fazer uma paródia de si mesmo. Ou seja: como num exercício automático de estilo, e visando a um efeito pretensamente piedoso (já que se trata de invocar Nossa Senhora das Neves), ou irônico e caricatural, ele parece juntar, levemente alterados, fragmentos da sua obra canônica”.

O livro de Humberto Nóbrega não esteve isento de críticas. Estudiosos como Raimundo Magalhães Júnior e Alexei Bueno, por exemplo, apontaram-lhe certa assistematicidade metodológica e falta de rigor na datação de alguns textos. Tais juízos não impediram que eles reconhecessem o valor da obra para uma melhor avaliação da poesia de Augusto. Magalhães Júnior cita-a o tempo todo no excelente estudo biográfico que escreveu sobre o poeta. Fia-se numa série de passagens do livro para interpretar imagens e temas presentes na obra do paraibano. À afirmação, por exemplo, de que ele fora “ferido, logo cedo, em sua vida sentimental”, feita por Humberto Nóbrega a propósito do episódio envolvendo a agregada Amélia, o cearense associa “a grande carga de amargura” dos seus versos. E não descarta lances como esse da sua vida para explicar a melancolia presente, por exemplo, num soneto como “Saudade”.

Alexei Bueno se empenhou para obter a coleção do “Nonevar” e consideraria a produção do poeta nesse jornal “esteticamente menor”, porém “válida como documento de época e documento humano”. Dão ideia do que esse material significou para ele as palavras que me endereçou pouco depois de o ter recebido: “Recebi hoje, ao meio-dia, os dois exemplares com o Nonevar, em perfeito estado, e você pode avaliar a minha alegria!”. Alguns linhas depois, acrescenta: “Já encontrei noNonevar, independente de tudo que precisava (ou seja, a produção relativa às noites de festa da padroeira) uma quadra e oitro crônicas inéditas, que vou começar a transcrever.”.

Por tudo isso, a republicação de “Augusto dos Anjos e sua época” fazia-se necessária e será recebida com entusiasmo por todos que se interessam pelo poeta. Graças a essa nova edição será possível corrigir problemas tipográficos e erros de revisão que dificultavam a leitura e acentuavam uma injusta impressão de improviso. Após essa limpeza gráfica, ver-se-á que o autor fez um competente retrato do tempo em que poeta viveu – uma espécie de belle époque paraibana e compôs uma excelente moldura para que se compreendam algumas das circunstâncias que forjaram o eu existencial e poético de Augusto.

 

Ensaio puplicado na nova edição do livro “Augusto dos Anjos e sua época”, de Humberto Nóbrega (Editora da UFPB).

 

Chico Viana (Francisco José Gomes Correia) é doutor em Letras pela UFRJ e autor de “O evangelho da podridão: culpa e melancolia em Augusto dos Anjos”