Traço de desunião

               Tenho lido várias críticas ao Acordo Ortográfico, algumas cobertas de razão. Não se muda impunemente a forma de escrever as palavras. O vínculo entre fonética e escrita é uma realidade linguística com repercussões psicológicas e estéticas.

               Tendemos a pronunciar o que vemos e a ver o que pronunciamos. A palavra é uma entidade acústica e também visual. Muitas vezes, sobretudo no âmbito literário, a preferência por um vocábulo em vez de outro decorre desse duplo aspecto.

 

               Apesar disso, é preciso ter boa vontade com as modificações e reconhecer sua importância para o prestígio internacional do português. Com o tempo vamos nos acostumar com a nova roupa de alguns vocábulos, mesmo porque na maioria dos casos a troca na indumentária se limita a um acento, quer dizer, a um simples chapéu.

 

               Mas quem, em alguma medida, não se ressente? Dói-me, por exemplo, escrever “idéia” assim. Sempre me pareceu que o que há de luminoso nessa palavra, etimologicamente associada a “luz”, encontra-se no ditongo aberto “éi”. Eu sei que retirando o acento agudo não desfaço a abertura do ditongo, pois a pronúncia permanece inalterada. Mas o acento era uma espécie de salvaguarda. Era um obstáculo a que se pronunciasse o “ei” fechado, como em “aldeia”.

 

               Já em “voo” o efeito foi melhor. Afora o risco de pronunciar “vu”, por influência do inglês, a palavra sem o circunflexo ganhou em volatilidade. O “chapeuzinho” parecia uma âncora às avessas, prendendo a palavra ao chão ou, pelo menos, impedindo plenamente a decolagem. Só o segundo “o” voava – agora voam os dois.

 

               Devaneios poéticos à parte, a dificuldade com os acentos vai ser fácil de superar. Complicado será o emprego do hífen, também conhecido como traço-de-união. Depois do Acordo, ele está mais para elemento de discórdia.

 

               A função do hífen é (ou pelo menos era) preservar a unidade fonética e gráfica dos compostos, ou seja, daquelas palavras cujo sentido global não é a mera soma do sentido dos componentes.

 

               Daí ele aparecer em vocábulos como “roda-viva”, “cabra-cega”, “conta-gotas”, “finca-pé”, que designam noções autônomas em relação aos elementos que os constituem (roda-viva é “movimento incessante”; cabra-cega, um “jogo infantil”; conta-gotas, um “instrumento para administrar remédios líquidos”; finca-pé, “empenho ou obstinação”).  

 

               O texto do Acordo cria sutilezas desnecessárias ao pretender distinguir, entre os compostos, aqueles nos quais “se perdeu, em certa medida (grifo nosso), a noção de composição”; tais compostos passam a ser  escritos aglutinadamente, ou seja, sem hífen. Com base nesse critério, o documento propõe que se grafe, por exemplo, “rodaviva” e “cabracega” – e se mantenha o hífen em “conta-gotas” e “finca-pé”.

 

               O problema vai ser decidir a partir de que limite a noção de composição se perde. Como o critério para isso é um tanto subjetivo, muita discussão vai rolar antes que se chegue a um consenso.

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