Sobre a reforma ortográfica

            É grande o alvoroço em torno da recente reforma ortográfica. Uns querem saber o que mudou; outros, se as mudanças são obrigatórias a partir do momento em que Lula assinou o Acordo de Unificação.

Mudaram pouquíssimas coisas; caíram alguns acentos e procurou-se simplificar o uso do hífen (a meu ver, em vão). Quanto à obrigatoriedade do emprego das novas regras, estas só serão exigidas em vestibulares e concursos públicos a partir de 2010. Enquanto isso haverá um período de adaptação, durante o qual as grafias antigas conviverão com as novas.

A reforma tem basicamente um objetivo político. Visa transformar o português em idioma oficial da Unesco, o que era uma antiga aspiração do filólogo Antônio Houaiss. Do ponto de vista lingüístico ela contém incoerências; uma delas é uniformizar grafias correspondentes a pronúncias distintas.

Tomemos dois exemplos: com a queda do trema que indica a pronúncia do “u” nos encontros “güe”, “güi”, “qüe”, “qüi”, escreveremos de igual forma vocábulos como “quilo” e “tranquilo”, “quente” e frequente”. Só que eles se pronunciam, respectivamente, /kilo/ e /trankuilo/, /kente/ e frekuente/. O sensato era que a grafia traduzisse a diferença de pronúncias. Um estrangeiro que venha a estudar nossa língua não vai entender por que num caso deve pronunciar /ki/, ou /ken/, e no outro /kui/ ou /kuen/.

O segundo exemplo diz respeito à queda do acento agudo nos ditongos abertos “éi” e “ói” de palavras paroxítonas. O motivo de se acentuar as vogais desses ditongos é indicar apronúncia aberta, já que sem o acento elas soam fechadas (ceia, meia, joio, apoio etc.).

Sem o acento, escreveremos igualmente “aldeia” e “ideia”, “arroio” e “apoio” (presente do indicativo do verbo “apoiar”). Novamente, o estrangeiro vai estranhar… E chegamos a um curioso paradoxo: a reforma busca simplificar e universalizar o idioma, mas cria obstáculos aos indivíduos de outros países que pretendam aprendê-lo.

O texto da reforma também apresenta incongruências no que diz respeito ao emprego dohífen. O objetivo deste sinal é garantir a integridade fonética e gráfica dos elementos que ele une. Esse princípio justifica, por exemplo, o seu uso em vocábulos como “auto-ajuda”, “contra-indicação”, “infra-estrutura”. Ou nos compostos formados por elementos autônomos, a exemplo de “beija-flor” ou “pára-choque”.

Com a reforma, aqueles derivados prefixais passam a ser escritos sem o traço-de-união e correm o risco de alterar a pronúncia para /autajuda/, /contrindicação/, /infrestrutura/.

Quanto aos compostos, ficou estabelecido que o hífen desaparece nos casos em que não mais existe a “noção de composição”. Em “beija-flor”, por exemplo, considera-se que essa noção se mantém, mas em “pára-choque” não. Diante disso “beija-flor” fica como está, e “pára-choque” passa a ser escrito “parachoque”.

Difícil vai ser chegar a um acordo quanto à “noção de composição”. Acho que em “malmequer”, por exemplo, não existe mais a idéia de um composto. O Acordo considera que existe. E estranhamente, contrariando o que já é tradição, propõe a grafia “mal-me-quer”.

Por essas e outras o melhor é a aguardar a publicação do novo Vocabulário Ortográfico, que a Academia Brasileira de Letras editará em breve. Como ele tem caráter oficial e normativo, evitará que o atual alvoroço se transforme numa perene dor de cabeça (ou será “dor-de-cabeça”?).

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