Seja prudente no uso de metáforas

Vez por outra os alunos me perguntam se é proibido usar metáforas nadissertação. Proibido não é, mas não se recomenda. A metáfora constitui um desviosemântico, um modo de dizer que extrapola os limites da linguagem informativa oureferencial.

 

Geralmente quem a produz busca expressar estados afetivos e emocionais, dizendo coisas do tipo: “Você é uma luz nas sombras da minha vida” (isso é apenas umexemplo, não um modelo!).

Não é esse o objetivo do texto dissertativo. Dissertar é expor com objetividadeopiniões sobre determinado aspecto da realidade. Por ela se mede o poderargumentativo do aluno, que deve manifestar com rigor seu ponto de vista.

A metáfora exige imaginação e domínio linguístico. Como ela é uma imagem, deve funcionar tanto por seu conteúdo quanto por sua forma. De metáforas a línguaestá cheia (no sentido literal e metafórico), e a fonte que as renova é por excelência otexto poético – não o texto em prosa.

Isso não quer dizer que a dissertação escolar deva ser incolor, insípida, pobreem expressividade. Como os conceitos existem a partir do mundo real, mesmo opensamento abstrato precisa de elementos concretos para se formular.

São bem-vindas as metáforas que concretizam noções abstratas e dão suportee vigor ao pensamento. Quando se fala em “eixo da argumentação”, “umbigo doproblema”, “franja do raciocínio”, estão-se usando metáforas desse tipo. Elas não sãopoéticas, são funcionais.

Outro dia, numa dissertação sobre as incertezas da adolescência, um de meusalunos referiu-se à “antessala do medo”. Nada mais próprio para sugerir ansiedade,ameaça futura, do que essa imagem de uma antessala a separar o perigo real da ideia (ou do temor) que se tem dele.

 

Metáforas como essa não constituem nenhum despropósito.