Revisitando Augusto dos Anjos

Quando surgiu, em 1912, o Eu foi recebido como um livroestranho e singular. Não é verdade que ele tenha sido rechaçado, oumesmo ignorado, por críticos e leitores comuns. Pelo contrário,mesmo quem se surpreendia com a sonoridade áspera e o vocabuláriopor vezes impenetrável de Augusto do Anjos percebeu naquelesversos as marcas de uma poesia vigorosa e, a seu modo, bela – masnão da beleza fluida e cristalina dos parnasianos. Influenciado porBaudelaire, o paraibano incorporava ao seu território poético o feio e o degenerado. Cantava “de preferência o horrível”, como se desejasse opor à nossa risonha belle époque um esgar macabro:

 

(…) Como Beleforonte com a Quimera

Mato o ideal; cresto o sonho, achato a esfera

E acho odor de cadáver na fragrância!

(“Aberração”)

 

Era difícil incluir o autor em alguma corrente estética. O Eusurgiu num momento em que Parnasianismo e Simbolismoconviviam, mas a rigor não se filia a nenhum desses estilos. Os historiadores terminaram incluindo-o no Pré-Modernismo, já que eleconstitui uma ponte entre os simbolistas e os modernos. Conserva dosprimeiros a musicalidade e o tom soturno, que lembra Cruz e Sousa. E tem dos segundos o vocabulário prosaico, por vezes apoético, emque palavras de uso cotidiano (vinagre, tesoura, sorvete) se alternamcom vocábulos científicos. Sua modernidade esta mais nisso do queno uso de versos que não rimam ou na metrificação livre. Como emtermos de métrica e de rima Augusto era convencional, foi praticamente ignorado pelos modernistas de 22.

Diz-se que o sucesso do Eu deveu-se mais ao povo do que àcrítica, o que até certo ponto é verdade. Não que os críticos tenham ignorado o poeta, mas não há dúvida de que as sucessivas edições dolivro despertaram os estudiosos para “o caso” Augusto dos Anjos. Agrande acolhida estimulou múltiplas abordagens da obra, muitas delasmais interessadas no autor do que em seus versos. Ao povo aindahoje fascina o indivíduo raquítico e doente, que teria deixado a Paraíba – depois de uma briga com João Machado – para morrertuberculoso em Leopoldina (MG). A verdade é que ele nem morreu de tuberculose, mas de pneumonia, nem foi injustiçado pelogovernador. Este, ao negar ao poeta licença remunerada quando elefoi tentar a vida no Rio, apenas aplicava a lei. Como Augusto não eraprofessor efetivo no Liceu Paraibano, não podia sair com ônus.

A tendência a se confundir o autor com a obra é um dosproblemas da leitura de Eu e outras poesias. Parece difícil ao leitorcomum entender que, quando o poeta diz “eu”, não falanecessariamente de si. Isso não ocorre nem na poesia lírica, que pordefinição expressa a subjetividade do artista e por vezes se confundecom suas lembranças e aspirações. Que dizer então de uma poesiacomo a de Augusto, na qual o eu é um disfarce para o nós? Apesar dotom confessional, seus versos falam de uma saudade que ultrapassa amemória subjetiva. É uma “saudade da monera”, abstração filosóficaque deve ser entendida como referência e origem não do indivíduo,mas da espécie.

A monera é a “mãe antiga” – a matriz ilusória de uma raça que, tendo perdido o Paraíso, ganhou a culpa. O poeta refere uma culpacósmica, expressa em imagens de peso, carga e dilaceramento físico. Essas imagens, típicas dos melancólicos, traduzem um desejo depunição:

 

Ah! Com certeza, Deus me castigava!

Por toda a parte, como um réu confesso,

Havia um juiz que lia o meu processo

E uma forca especial que me esperava!

(“As cismas do Destino”)

 

Apesar disso, Eu e outras poesias não é um livro difícil. O quelhe dificulta a leitura é o vocabulário de base científica e filosófica, absorvido pelo poeta em suas leituras de Spencer, Leibniz, Haeckel eoutros. É preciso traduzir essas palavras e, sobretudo, compreenderque no universo poético de Augusto elas perdem a referência original. Deixam de ser conceitos e se transformam em imagens. Transfiguradas poeticamente, valem como metáforas que buscamtraduzir as obsessões do poeta com a origem e o destino humano.Pela acústica original, concorrem para o expressionismo de umapoesia áspera, dissonante, que segundo Manuel Bandeira se propagapor estampidos.

Augusto dos Anjos não é difícil nem “perigoso”; corrói menosdo que Machado de Assis, cujo pessimismo sutil nos pega indefesos(em Augusto o pessimismo, agônico, tem a eloqüência do Barroco). No entanto indica-se continuamente o velho bruxo para osvestibulares, enquanto o Paraibano do Século é esquecido até pelasuniversidades daqui.

Augusto fala em morte, vermes, esqueleto, mas também temolhos para o espetáculo da vida. Em muitos de seus poemas longos, às elucubrações tristonhas sucede a descrição do nascer do sol, queinjeta seiva em plantas e bichos. O poeta se entusiasma com osfenômenos vitais e vê o homem, a despeito da mágoa (mácula) que o deprime, como um produto da energia recriadora da Natureza.