Relendo a tragédia grega

A sorte é um dos maiores mistérios para o ser humano. Uns a negam, dizendo que as circunstâncias positivas que cercam a vida de uma pessoa são fruto do acaso. Outros a vêm como o Destino a favor. Quando o Destino conspira contra, a sorte deixa de ser sorte e se chama fado. 

É o fado que rege a trajetória dos heróis trágicos. Eles praticam seus crimes não por deliberação, mas por um erro de cálculo ou hamartia. Édipo, por exemplo, ao matar Laio não sabia que ele era seu pai. A falta cometida por  engano coloca o herói em hybris. A hybris é uma espécie de desafio aos deuses e se caracteriza por um profundo sofrimento moral. O desfecho para ela é geralmente a loucura ou a morte.

Em Ponto Final, que está em exibição em um de nossos cinemas, Woody Allen manipula com maestria esses elementos da tragédia grega. O filme conta a história de Chris, jogador medíocre de tênis que ganha a vida como treinador num clube para ricos. Chris cai nas graças de Tom, um de seus alunos, que é milionário e introduz o rapaz em seu meio. 

O tenista se deslumbra com jantares, viagens, caçadas, e conquista o coração da irmã de Tom, Chloe. Ao mesmo tempo conhece Nola, noiva do amigo, por quem sente uma atração fulminante. Enquanto Chloe é de uma beleza insípida, Nola transpira sensualidade. Chris se casa com a irmã de Tom, por desejo de ascensão social, mas não resiste a um caso com Nola. Em conversa com um amigo, ele explica o que sente pelas duas como uma oposição entre amor e luxúria.

Seu erro de cálculo se evidencia quando Nola confessa estar grávida. Começa a fazer pressão para que ele acabe o casamento e venha viver com ela. Desesperado com a possibilidade de perder a mulher, e sobretudo o status que a união lhe trouxe, Chris decide matar a amante. Para isso tem que sacrificar também uma vizinha inocente, cuja morte desfaria eventuais desconfianças da polícia.

O desfecho da trama confirma a ligação do roteiro de Allen com a tragédia grega, mas com uma diferença: Enquanto em Ésquilo, Sófocles ou Eurípides o acaso incrimina o herói, no filme ele o absolve. Chris é mesmo um indivíduo de sorte. Restam a turvar-lhe a felicidade conjugal as garras do remorso. 

Na seqüência final, seu rosto faz um contraste sombrio com a tranqüilidade da mulher, dos sogros e do cunhado. É uma máscara que lembra a fisionomia de Raskolnikov, o protagonista do seu livro de cabeceira – Crime e Castigo.

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