Problemas coesivos em redações de vestibulandos

                                 Chico Viana

           A coesão é um dos principais requisitos para um agrupamento de palavras constituir um texto, pois promove a articulação dos elementos que o compõem. É o arcabouço formal de que deriva a coerência e se constrói “através de mecanismos gramaticais e lexicais” (Costa Val, p. 6). Se os componentes linguísticos não se articulam por meio de tais mecanismos, tem-se um ajuntamento de palavras incapaz de comunicar a intenção de quem escreve.

         Falhas nas relações coesivas refletem lacunas no pensamento e incapacidade de articular corretamente as ideias, o que prejudica o sentido.  Segundo Irandé Antunes, “a continuidade que se instaura pela coesão é, fundamentalmente, uma continuidade semântica” (Antunes, p.).    

      Há dois mecanismos básicos pelos quais se estabelece a coesão: a retomada ou antecipação dos elementos do discurso, e a articulação entre as suas partes. Daí se falar numa coesão referencial e numa coesão sequencial.   

          Suponhamos que alguém diga: “Pedro desistiu de fazer Medicina. Agora só pensa em Direito”. O que dá unidade a esses períodos, ou seja, o que os transforma num pequeno texto é o fato de se entender “Pedro” como sujeito do verbo pensar. Ocorre ai um exemplo de coesão referencial (mais especificamente, coesão por elipse).

        A coesão referencial se faz por meio de vocábulos gramaticais (pronomes, numerais, determinados advérbios) ou por meio de vocábulos lexicais (substantivos e  verbos). Eis alguns exemplos do primeiro tipo:  

                  “Vieram duas pessoas. A primeira chegou muito antes da hora.” (numeral) 

                  “Recebi os presentes ontem. Gostei mais do seu.” (pronome) 

                  “Mude essa roupa. Vestido assim você não entra na festa.” (advérbio)

          Na coesão lexical utilizam-se vocábulos de significação externa, ou seja, não pertencentes ao universo da gramática. Esse processo permite ampliar a noção expressa pelo referente mediante sinônimos, hiperônimos e demais expressões que possam caracterizá-lo. Exemplos:     

                “O jogador sofreu uma lesão no início da partida. Por mais que tentasse, ninguém conseguiu consolar o atleta” (sinônimo).

                “Comprou uma geladeira. Poucos dias depois, o eletrodoméstico apresentou defeito” (hiperônimo).

            "Machado de Assis ainda é o maior escritor brasileiro. Poucos resistem ao fascínio despertado pelo Bruxo do Cosme Velho (expressão com que se costuma caracterizar o escritor).

          Grosso modo, as falhas na coesão decorrem do uso inadequado dos conectivos, do cruzamento de estruturas sintáticas e da falta de correlação entre classes morfológicas. A esse conjunto soma-se o emprego abusivo do advérbio relativo “onde” (o chamado “ondismo”), que preferimos manter num grupo à parte. A seguir apresentamos alguns desses casos.  

 I – Uso inadequado dos conectivos

           Os conectivos são responsáveis pela articulação lógico-sintática de termos simples e orações. A falha no seu emprego gera incoerência e obviamente compromete a unidade textual. Alguns exemplos extraídos de redações:   

           (a) “Como os adolescentes têm o organismo menos resistente, por isso podem virar dependentes logo cedo.”

O uso simultâneo da conjunção causal e da consecutiva mostra que o aluno foi incapaz de perceber que as circunstâncias por elas indicadas se expressam com a presença de apenas um dos conectivos. A indefinição quanto à oração principal não gera propriamente incoerência, mas dificulta a apreensão da mensagem.

           (b) “O avanço tecnológico, além de suas vantagens e comodidades, traz preocupação a todos nós.”

         Trocou-se um conectivo concessivo (apesar de) por um aditivo (além de).  

          (c) “Não queria deixar vovó sozinha a tão pouco tempo da morte do meu avô.”

          O uso de preposição em lugar de verbo transforma passado em futuro e dá a impressão de que o autor da frase foi capaz de prever a morte do avô!

        (d) “O cigarro é uma irracionalidade, mas não podemos aplaudi-lo”.

           Como aceitar que, sendo o cigarro uma irracionalidade, haja algum tipo de contraste em aplaudi-lo?

Os três exemplos seguintes revelam deslizes no uso do pronome relativo, que diferentemente das conjunções e preposições promove a coesão por referência, e não por sequenciação (o relativo representa semanticamente um termo da oração anterior):

          (e) “Uma das práticas que até agora não foi elaborado o conceito é a do ‘ficar’”.

        O emprego do chamado relativo universal confirma a tendência que se observa hoje de evitar o “cujo”. Pareceu difícil ao aluno reconhecer “conceito” como um núcleo modificado pelo adjunto adnominal “uma (das práticas)” e iniciar a oração por “cujo conceito”.

         (f) “O sofrimento é uma etapa da vida em que todos passam por ela.” 

Nesse exemplo o estudante faz anteceder ao relativo uma preposição inadequada à regência do verbo, quando bem poderia tê-la trocado pelo conectivo correto, que ele usa no fim da frase: “…é uma etapa da vida por que todos passam.”

       (g) “Perdi meu pai e fui morar com meu tio em Areia; ele era um sacerdote, no qual aprendi as minhas primeiras noções de latim.”

       Também por uma falha de regência quebra-se a coesão no último exemplo. O verbo “aprender”, bitransitivo no contexto, rege seu complemento indireto com a preposição “com”, e não “em” (o aluno aprendeu com o seu tio, não no seu tio). Pode ter concorrido para a confusão a presença do adjunto adverbial de lugar; afinal de contas, foi em Areia que ele recebeu do parente as primeiras noções de latim.

       São muitos os casos de ruptura da coesão devido ao uso errôneo dos conectivos. Terminamos com esta curiosa passagem, em que a conjunção e a preposição agrupadas têm sentidos opostos — “até” indica limite, “enquanto” indica duração: “Os famosos terão que lidar com os fotógrafos das revistas de fofoca até enquanto durarem suas carreiras artísticas”. Associar os dois torna o enunciado incoerente. Ou se suprime o “até”, ou se mantém esse conectivo com a devida alteração do verbo (“até acabarem suas carreiras artísticas”).

         II – Cruzamento de estruturas sintáticas

       É comum o aluno juntar duas estruturas que individualmente fazem sentido, mas associadas truncam o enunciado. Isso ocorre, por exemplo, na passagem abaixo:

        “Segundo o pesquisador britânico Richard Lynn, em entrevista a Época, ele afirma que os ateus são mais inteligentes do que os religiosos.”

         A referência inicial a “Richard Lynn” já diz que ele é o autor da afirmação que vem depois. Não há então necessidade de repetir o pronome e o verbo dicendi (“ele afirma”).  O aluno parece que esqueceu a preposição com que iniciou a frase e acabou dando-lhe o aspecto de um anacoluto. Deveria ter optado por uma destas construções: 

         1 – “Segundo o pesquisador britânico Richard Lynn, em entrevista a Época, os ateus são mais inteligentes do que os religiosos”;

        2 – “O pesquisador britânico Richard Lynn afirma, em entrevista a Época, que os ateus são mais inteligentes do que os religiosos”.

     Por vezes esse tipo de cruzamento é efeito da associação de alguns verbos e nomes com outros de regências diferentes, o que redunda no uso de conectivos indevidos. É o que ocorre em passagens como: “A pessoa tranquila não está preocupada em vencer de ninguém” e “Discordo com suas idéias”.

       O mau uso das preposições se explica, respectivamente, pelo vínculo mental que se fez entre “vencer” e “ganhar”, que rege complemento introduzido por “de”; e entre “discordar” e “não estar de acordo”, em que o substantivo forma locução prepositiva mediante o acréscimo de “com”.

    III – Falta de correlação entre classes morfológicas    

      A falha de coesão também ocorre quando o aluno supõe que o termo de uma classe gramatical é capaz de estabelecer uma correlação que, sintaticamente, só pode ocorrer com o de outra.  Por exemplo:

 “A sociedade contemporânea apresenta mais problemas emocionais do que em outros períodos de nossa civilização.”

        A preposição grifada, introdutora de um adjunto adverbial de lugar, demonstra que o autor pretendeu comparar duas circunstâncias, e não dois sujeitos. Ele não quis dizer que a sociedade contemporânea apresenta mais problemas emocionais do que outros períodos (apresentaram). Pretendeu, isto sim, afirmar que os problemas emocionais na contemporaneidade são mais frequentes do que em períodos anteriores — o que faz diferença do ponto de vista sintático.

Pareceu-lhe que o adjetivo “contemporânea”, por seu valor semântico, correlacionava-se com o segmento de valor adverbial. Ele evitaria a ruptura se tivesse escrito, por exemplo: “A sociedade apresenta mais problemas emocionais hoje do que em outros períodos de nossa civilização.”

        Na frase que segue, a ideia contida no substantivo “conflitos” é retomada pela expressão vicária “faz isso”, que só poderia substituir o conteúdo de um verbo: “Apesar dos conflitos constantes, eu sei que minha mãe só faz isso para me ajudar e quer o melhor de mim.”

         A noção de “brigar”, latente em “conflitos”, levou à falha coesiva. Explicitando-se a ação verbal, corrige-se a quebra: “Minha mãe briga constantemente comigo, mas sei que ela só faz isso para me ajudar e quer o melhor de mim.”

         Podem-se incluir nesse grupo os casos em que a falta de correlação se dá devido à confusão entre as subclasses que englobam agente e paciente, ou vice-versa. Embora pertença à mesma classe morfológica do termo anterior, o elemento que retoma esse termo difere do antecedente pelo maior grau de concretude ou abstração que possui. Exemplos:

 (h) “O consumismo é o ato de comprar de forma compulsiva, sem necessidade e consciência. Difere do consumidor, pois este compra o que é necessário para a sua vida.”

“Consumismo”, que é a prática de comprar em excesso, não se correlaciona com “consumidor”, que é quem compra. Não haveria quebra se o sujeito do primeiro período   fosse o substantivo “consumista” — fazendo-se, é claro, as alterações no predicado. Ou se, em vez de “consumidor”, aparecesse uma expressão como “mero consumo”.

(i) “O professor, sinônimo de educação, deveria ser considerada uma das profissões mais respeitadas e dignas.”

Na passagem acima, “professor” deveria se correlacionar com “profissionais”. “Profissões” só caberia se o sujeito do primeiro parágrafo fosse, por exemplo, o substantivo “magistério”. A falta de correlação provocou, inclusive, falha na concordância da voz passiva (“deveria ser considerada”).

          IV – Ondismo 

      “Onde” é um advérbio relativo. Seu papel é fazer o termo ao qual se refere aparecer na oração adjetiva como um adjunto adverbial de lugar. Por exemplo: “O gramado / onde o atleta resolveu acampar / era malcuidado.” Como o gramado é um lugar, o “onde”, que o retoma, está bem empregado na frase. Entende-se, colocando a oração adjetiva na ordem direta, que “o atleta resolveu acampar no gramado”.

        O problema começa quando se esquece o valor semântico desse conector e se passa a usá-lo indiscriminadamente. Ele vira uma espécie de curinga e junta as orações sem indicar exatamente o nexo que existe entre elas. A esse tipo de abuso dá-se o nome de ondismo. 

       Seguem exemplos também retirados de redações. Entre parênteses aparecem os conectivos que o advérbio relativo indevidamente substitui (deixamos de corrigir outros problemas existentes nas frases):  

  1. “Esses indivíduos possuem o humor instável, onde muitas vezes irrita as pessoas.” (que)
  2.  “A qualidade de vida melhorou com a Revolução Industrial, onde as massas começaram a consumir mais.” (quando)

      Nos exemplos acima, o “onde” toma o lugar de relatores semelhantes a ele (ou seja, que retomam termos anteriores: “humor” e “Revolução Industrial”). Já nos três exemplos seguintes, o onde substitui conectivos que sequenciam orações (explicativa, conclusiva e concessiva, respectivamente).

  1. “Isso se deve à mania comparativa, onde hoje estamos nos comparando com os amigos, colegas de turma ou do trabalho etc.” (pois)
  2.  “Cada família tem sua forma de educar e passar seus valores, onde os jovens podem se deparar com estruturas familiares opostas as suas.” (então, por isso)
  3. “O bate-papo da internet está assassinando a língua portuguesa, onde ocorre entre pessoas que têm base escolar”. (embora ocorram entre pessoas…)

       Há situações em que o advérbio relativo não tem valor algum e aparece por uma espécie de automatismo, substituindo sinais de pontuação:

  1. “De tudo que meu avô me ensinou, essa foi a maior lição, onde a alegria transforma o impossível em possível.” (substitui os dois-pontos) 

         Em outras ele se antecipa a termos que indicam lugar ou tempo:

  1.  “Foi estudar no colégio Pio X, onde lá terminou todo seu período escolar.” (antecipa um advérbio de lugar e gera um pleonasmo). 
  2. “O ser humano desde a sua existência tem um lado criativo de ser; uns, pouco aguçados e outros mais, onde na pré-história, por exemplo, o homem se adaptava criando ferramentas tanto para caça quanto para necessidades próprias.” (nessa passagem o “onde” o ponto e antecipa, inadequadamente, uma expressão indicativa de tempo). 

     Enfim, o ondismo compromete a unidade do texto. Além disso, prejudica a estética da frase. Usado indiscriminadamente, o “onde” funciona como uma falsa liga e acaba sobrando. Empregá-lo no lugar dos conectores adequados indica, no mínimo, preguiça mental.

                                                                  Mantenha o paralelismo

          Problemas coesivos podem ocorrer também na chamada quebra de paralelismo. O paralelismo é a identidade formal entre elementos coordenados. Como na coordenação os termos têm o mesmo valor, convém que eles tenham a mesma forma. Quando isso não ocorre, os efeitos podem variar da deselegância à confusão de sentido. 

         Um exemplo de quebra do paralelismo ocorre nesta passagem: “Como no Brasil a educação é precária, as crianças tentam conseguir dinheiro através de mendicância, roubo e até se prostituindo”. Na parte final do período, o aluno apresenta um adjunto adverbial de meio com três núcleos que se coordenam. O primeiro (mendicância) é um substantivo; o segundo (roubo), também.  Esperava-se que o terceiro fosse um nome, já que esses núcleos têm o mesmo valor sintático. Isso todavia não ocorreu; a sequência se fechou com uma oração (se prostituindo).

        A ruptura não tornou o texto incompreensível, mas quebrou a simetria estrutural. Compare a versão do aluno com as que seguem, nas quais se estabeleceu o paralelismo:      

        1) “Como no Brasil a educação é precária, as crianças tentam conseguir dinheiro por meio de mendicância, roubo e até prostituição”.

       2) “Como no Brasil a educação é precária, as crianças tentam conseguir dinheiro mendigando, roubando e até se prostituindo.”

        A ruptura da coesão por quebra do paralelismo é comum em pares correlativos do tipo “não só…  mas também…”, “não tanto… quanto…” e semelhantes. Os termos que se seguem a cada membro do par devem ter a mesma estrutura, mas nem sempre se observa isso, como se vê nesta outra passagem: “É preciso que as punições sejam cumpridas para que os alunos aprendam não só a teoria da ética, mas também a pratiquem desde cedo.”

      O aluno correlacionou erroneamente uma expressão nominal (a teoria da ética) com uma oração (a pratiquem desde cedo). Para tornar a construção paralela, basta deslocar “não só” para antes do verbo “aprender”: “É preciso também que as punições sejam graves e de fato cumpridas, para que os alunos não só aprendam a teoria da ética, mas também a pratiquem desde cedo.” Agora ambos os membros do par têm como consequentes orações. 

         Segue um exemplo com a ruptura paralelística em no par “tanto… quanto…”: “As mulheres contribuem com um terço da renda familiar, o que lhes dá autoridade tanto com os filhos, quanto para tomar decisões que afetam a todos.”

      Novamente se tentou correlacionar um nome (filhos) com uma oração (para tomar decisões). O período fica harmonioso caso o primeiro consequente seja também oração: “As mulheres contribuem com um terço da renda familiar, o que lhes dá autoridade para tanto educar os filhos, quanto tomar decisões que afetam a todos.”

         Em alguns casos o desrespeito ao paralelismo dá ao enunciado o aspecto de um anacoluto, ou seja, de uma ruptura violenta na ordem sintática. O resultado é a obscuridade de sentido: “Talvez o preconceito se explique por se achar que pobre é indefeso, explorado e, conforme diz Lya Luft, que estão todos contra ele.”

        Ao coordenar os predicativos, o aluno usou dois adjetivos (indefeso, explorado) e uma oração. Alertado sobre o problema, tratou de substituir a oração por um adjetivo equivalente do ponto de vista semântico: “Talvez o preconceito se explique por se achar que pobre é indefeso, explorado e, conforme diz Lya Luft, hostilizado por todos.”

         Os casos apresentados nesta postagem enfocam o paralelismo sintático. Em outra ocasião trataremos do paralelismo semântico.

                                                    Cruzamentos sintáticos

           Boa parte dos problemas coesivos nas redações decorre de cruzamentos sintáticos. Eles ocorrem quando de duas formas ou estruturas semelhantes cria-se uma terceira, geralmente condenada pela norma culta. São frequentes no domínio da regência e da estruturação oracional.

           No domínio da estruturação oracional, é comum haver cruzamento entre uma oração desenvolvida e outra reduzida: “A Constituição proíbe que as crianças e os adolescentes de responderem pelos seus atos.” A presença da conjunção integrante e da preposição mostra que o aluno hesitou entre duas construções: “A Constituição proíbe que as crianças e os adolescentes respondam pelos seus pelos seus atos” e “A Constituição proíbe as crianças e os adolescentes de responderem pelos seus atos”.  Terminou misturando as duas.  

        Outro tipo de cruzamento ocorre entre membros dos pares correlativos que introduzem determinadas orações. Por exemplo: “Muitas pessoas perdem grandes oportunidades por se expressarem mal seja na escrita, como na oralidade.”

        Tal como no caso anterior, há nesse tipo de contaminação uma quebra de paralelismo. Os pares legítimos são, respectivamente, “seja…seja” e “tanto… como”, que têm respectivamente valor alternativo e aditivo. O estudante poderia ter optado por uma das duas construções: “Muitas pessoas perdem grandes oportunidades por se expressarem mal seja na escrita, seja na oralidade” ou “Muitas pessoas perdem grandes oportunidades por se expressarem mal tanto na escrita, como na oralidade.”

      Existm, por fim, cruzamentos que truncam o sentido e tornam incompreensível o enunciado. Geralmente em tais construções se abandona o termo inicial (tópico da sentença), o que dá ao período o aspecto de um anacoluto, ou seja, de uma quebra na sequência das ideias. Dois exemplos:

      – “A utilização das figuras de linguagem são mais utilizadas em textos literários.”

      – “O responsável pela educação brasileira não cabe somente a uma categoria de pessoas, mas a toda a sociedade.”

        Um bom exercício é pedir aos alunos que escrevam os fragmentos de duas maneiras, destacando os diferentes tópicos das sentenças (em negrito): 

       – “A utilização das figuras de linguagem ocorre mais em textos literários”, “As figuras de linguagem são mais utilizadas em textos literários.”

       – “O responsável não é somente uma categoria de pessoas, mas toda a sociedade”, “A responsabilidade pela educação brasileira não cabe somente a uma categoria de pessoas, mas a toda a sociedade.”

Abandono do tópico sentencial

          Há também quebra na coesão quando se deixa de lado o tópico da sentença. Um exemplo disto ocorre no parágrafo abaixo, que aparece numa redação sobre o rolezinho (um tipo de protesto em que jovens da baixa classe média ou das periferias se encontram nos shoppings). Eis o texto:

         “É natural que esses garotos busquem o espaço privado dos shoppings, pois além de ser um local valorizado por nossa sociedade centrada no consumo, as cidades brasileiras sofrem com a falta de infraestrutura urbana.”

        O período apresenta falhas de concordância (os shoppings são locais) e de pontuação (o atributo “centrada no consumo” tem caráter explicativo, e não restritivo; deveria, por isso, estar antecedido de vírgula). O que ele tem de mais grave, contudo, é uma quebra de unidade ligada ao abandono do tópico sentencial.

      Esse tópico é o tema ao qual as informações de uma sentença se referem. No fragmento do aluno ele está representado pelo termo “shoppings”, ou melhor, pela preferência que os rolezeiros têm por esses locais para realizar seus encontros. Ao tentar explicar isso o aluno pospõe à conjunção explicativa a locução “além de”, dando a entender que vai apresentar duas justificativas.

         A primeira é a de que os shoppings são locais valorizados pela sociedade. E a segunda?… É aí que ocorre a quebra: em vez de continuar se referindo ao tópico, o estudante apresenta um novo sujeito (as cidades brasileiras). Isso quebra a expectativa do leitor, que esperava alguma coisa do tipo: “…pois além de serem locais valorizados por nossa sociedade, centrada no consumo, os shoppings têm uma infraestrutura que as sofridas cidades brasileiras não têm”.

        Exemplo parecido ocorre nesta outra passagem: “Com a certeza da impunidade, em vez de seguirmos as normas como foram propostas, a cultura do famoso jeitinho vem se difundindo e tornou-se louvável.”

          A ideia do aluno é a de que a certeza da impunidade estimula entre nós a prática do “jeitinho”. Se temêssemos as punições, trataríamos de seguir as normas. Esperava-se que na última oração ele continuasse falando de nós, brasileiros. Em vez disso, introduz como sujeito “a cultura do famoso jeitinho.”   

       O texto teria mais clareza se o sujeito fosse mantido: “Com a certeza da impunidade, em vez de seguirmos as normas, vimos difundido a cultura do famoso jeitinho, que se tornou louvável.”

           No trecho seguinte, a ruptura ocorre entre dois períodos:

         “A ONG Nova Vida trata a espiritualidade dos viciados com muita atenção, o que, segundo os jovens, os auxilia a enfrentar os desafios após a saída do centro. Além disso, são oferecidas aos internos aulas a fim de que eles estejam preparados para o mercado de trabalho.”

         O tópico é “a Ong Nova Vida”, elogiada pela forma como trata os viciados. Era natural que no segundo período se continuasse falando dela. Em vez disso, aparece como sujeito “aulas”. Como se não bastasse, o aluno optou pela voz passiva, o que também concorreu para romper a unidade.

        Na refeitura, a manutenção do tópico implica o restabelecimento da voz ativa:

      “A ONG Nova Vida trata a espiritualidade dos viciados com muita atenção, o que, segundo os jovens, os auxilia a enfrentar os desafios após a saída do centro. Além disso, oferece aulas aos internos a fim de que eles estejam preparados para o mercado de trabalho.”

        Os problemas coesivos refletem um despreparo que não é apenas de natureza gramatical. Ninguém decora conectivos para aplicá-los bem, pelo contrário: aplica-os bem quando é capaz de perceber as relações que eles estabelecem entre as ideias.

            Infelizmente boa parte dos alunos não é capaz de estabelecer essas relações e usa os elementos coesivos apenas por um imperativo escolar. Escreve o que lhe vem à cabeça e, como diz Alcir Pécora, “desliga o sentido do relator do sentido da relação” (Pécora, p. 77). Com isso, revela-se incapaz de conferir aos componentes do discurso nexo e coerência. Cabe à escola trabalhar essas deficiências enfatizando a leitura. Só aprendendo a ler, o estudante perceberá a natureza e o sentido dos enlaces que se estabelecem entre as palavras — condição primeira para produzir com eficiência um texto.

        O estudo da coesão deve perseguir a variedade no emprego dos elementos coesivos, evitando-se a monotonia das repetições. A escolha correta entre um vocábulo gramatical ou um vocábulo lexical pode dar mais clareza ao enunciado e aumentar o grau de informatividade. Uma boa forma de se exercitar é procurar substituir por termos diversos a primeira ocorrência de um vocábulo, como ocorre no parágrafo abaixo com “internet”: 

        “A internet diminui a solidão social das pessoas, mas não lhes ameniza a solidão emocional. Os “encontros” na internet são superficiais, periféricos, e por isso não atingem o âmago das relações humanas. Para atingi-lo é preciso contato e presença, que o mundo da internet não propicia. Pelo contrário, as relações intermediadas pela internet dispensam o encontro pessoal e as trocas afetivas que dele decorrem.”

          Expressões como “virtual, cibernético”, “pela rede” são substitutos possíveis.

         REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras; coesão e coerência. São Paulo, Parábola Editorial, 2005.  

COSTA VAL, Maria das Graças. Redação e textualidade. São Paulo: Martins Fontes, 2006.  

PÉCORA, Alcir. Problemas de redação. São Paulo: Martins Fontes, 199.

Chico Viana (Francisco José Gomes Correia) é doutor em Teoria da Literatura pela UFRJ e professor aposentado da UFPB. (www.chicoviana.com)

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