Poucas e boas

Os manuais de estilística definem concisão como rigor, adequação da forma ao conteúdo. É uma característica muito próxima da clareza, pois o excesso de palavras tende a obscurecer o sentido. O conceito de concisão associa-se ao de informatividade; um texto conciso geralmente tem um bom nível de informação, pois dispensa artifícios que visam apenas a encher a página. Esses artifícios, no entanto, tentam os redatores, sendo motivo de reflexões torturadas que às vezes rendem bons textos. Um aspecto da chamada metalinguagem consiste nesse exercício especulativo e doloroso, no qual o escritor enfrenta o silêncio e tem de o vencer. É a luta muitas vezes vã de que fala o poeta Drummond num de seus poemas.

A situação não é bem essa quando se trata de uma redação de vestibular, por exemplo. Neste caso, quem escreve não o faz por necessidade interior, compromisso estético ou desejo de mudar o homem. Visa cumprir um dever, realizar um exercício em que deve revelar organização do pensamento, uso adequado das palavras, defesa consistente de um ponto de vista.

Se a natureza do desafio é outra, contudo, a angústia talvez seja a mesma. Diante do aluno está a famigerada página com determinado número de linhas que ele deve a todo custo preencher. E não vale, como às vezes fazem os escritores, transformar essa dificuldade em tema. A banca não vai se sensibilizar com esse artifício, que funciona em produções literárias mas compromete a eficácia de um texto argumentativo.

    Para contornar esse tipo de dificuldade muitos apelam a “recursos de preenchimento”, cuja função é suprir o vazio de ideias; afinal, quem não tem o que dizer procura disfarçar isso da melhor (ou pior) maneira possível. Tais recursos inflacionam a forma e são um atentado à concisão.

Um dos meios de preencher linhas é lançar mão de definições equívocas. Definir é sempre um perigo; ao tentar conceituar pessoas, fenômenos, estados de alma, corre-se o risco de pecar por imprecisão. Ou por presunção. Se o objeto definido não se enquadra no juízo que se faz dele, evidencia-se logo o despropósito.

    Além das definições equívocas, outra forma bastante recorrente de encher papel é o uso de lugares-comuns. A farta presença deles nas redações preocupa. Dizer o que todo o mundo diz, e às vezes com as mesmas palavras, constitui um dos maiores problemas da produção textual dos alunos. O lugar-comum indica padronização do raciocínio e falta de visão crítica. Dá aos textos um aspecto indiferenciado e os torna previsíveis, sugerindo que foram escritos por um só autor. Segundo Alcir Pécora, ele é “na verdade, um lugar de ninguém, uma cidade fantasma”. Os lugares-comuns aparecem como ideias repetidas ou expressões cristalizadas. É preciso ler muito e consultar dicionários para escapar desses chavões.

    Há muitas formas de exercitar a concisão. Uma delas é recolher de jornais, revistas ou das próprias redações trechos em que ocorre excesso de palavras e tentar enxugá-los o máximo possível. O hábito de fazer isso leva a pensar duas vezes antes de escrever o que vem à cabeça.

Chico Viana é professor da UFPB, doutor em teoria literária pela UFRJ e autor de O evangelho da Podridão: Culpa e Melancolia em Augusto dos Anjos

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