Página de um diário

Sexta-feira, 2 de julho de 2010.

 

Hoje foi um dia estranho. O Brasil estava enlutado. Acho que tem a ver com a derrota para a Holanda na Copa. Mesmo assim, fui ao shopping ver “Eclipse” com uma amiga. Foi engraçado ver a cara de desolamento das pessoas na rua. Eu sei, isso soou meio sádico, mas, Brasil, foi só um jogo! A vida segue! Nós inda somos subdesenvolvidos! De qualquer forma, tentei ser solidária com a dor alheia. Até usei preto! E olhe que tenho uma blusa laranja linda.

O filme foi legal. Tinha pouca gente na sala, mas nunca vi tanta gritaria. Fãs alucinadas de “Crepúsculo” devem ter pulmões especiais. Saindo do cinema, resolvemos ir à praia.

Estávamos na porta do shopping quando um menino de uns 13 anos chegou todo marrento, pedindo “ajudinha”. Nós não tínhamos. Depois de repetir o pedido algumas vezes e ouvir a mesma resposta ele se irritou: “O cara vem pedir na educação, vocês não dão! Agora se botasse uma arma na cabeça, davam até as calças. Sorte de vocês que hoje não é meu turno!”.  Sorte nossa? Turno? Quem ficou com medo levante a mão! Eu fiquei. Ainda bem que painho chegou logo e nos levou à praia.

Foi lá que conhecemos Seu Simplício. Era um cara negro, cabelos grisalhos, corpo de trabalhador braçal e roupas desbotadas. Passou dando “Boa noite” a todo mundo, mas só nós respondemos. Quatro sorridentes “Boa noite”. Ele parou e disse ilogicamente ao meu amigo: “Você faz música”. Ele negou dizendo que gostava de musica mas não compunha. “Ah”, o homem disse, “eu faço música. E poesia. Querem ouvir?” Nós queríamos, então ele recitou um poema, outro e mais outros.

Não ousamos lhe perguntar nada, mas ele foi dizendo, entre uma poesia e outra, o seu nome, de onde veio, da sua passagem pela prisão. Às vezes parecia que ele ia embora, mas então voltava e recitava outro poema. Quando foi embora mesmo, não pediu um só centavo. Daríamos se o tivesse feito, mas acho que ele só queria nossa atenção.

Seu Simplício me deu o que pensar. É bom saber que no país pentacampeão, onde crianças ameaçam pessoas na porta dos shoppings, existem pessoas que ficam felizes simplesmente em recitar sua poesia para quatro jovens que lhe deram “Boa noite”, e me sinto honrada por ter sido, hoje, um desses jovens.

 

(Extensivo 2010)