O mau português é desemprego

Qual o nosso grau de tolerância com os erros de português? Somos rigorosos ou, pelo contrário, tendemos a condescender com as transgressões à norma? Não temos o rigor dos franceses, para quem uma infração ortográfica é caso de segurança nacional. Mas bem que podíamos ser um pouco mais cuidadosos. 

Lula é um bom exemplo do nosso grau de complacência com erros de gramática. Os adversários miraram durante muito tempo esse ponto fraco, depois deixaram de falar no assunto. O “estilo” do presidente acabou sendo absorvido, tornou-se natural. 

Percebeu-se que, se Lula é povo, tem que falar como povo. O discurso dele expressa suas origens. É possível até que o presidente resista a aprender prosódia e sintaxe, com medo de se descaracterizar. Um Lula impecável, a ruibarbosear regências e colocações pronominais castiças, perderia o vínculo com suas raízes. 

Desvios de concordância e impropriedades semânticas (como a de confundir “tatame” com “tapume”) não impediram que ele fosse reeleito. Mas isto se explica: a maior parte dos que o elegeram não está preocupada com sutilezas do vernáculo. Precisa primeiro encher a barriga.

Há, no entanto, quem entre nós venha se preocupando com o uso correto do idioma. Li recentemente que algumas empresas estão condicionando a contratação de funcionários a um conhecimento mínimo de português. Nas entrevistas, elas incluem exercícios de interpretação e redação. Quem é incapaz de escrever sem erros e não capta as idéias principais de um texto perde a chance de ser admitido.

A tendência é que medidas como essa tornem-se comuns. O bom uso da língua é fundamental para a comunicação dos membros da empresa entre si e com a comunidade. Erros lingüísticos, dependendo do grau e da recorrência, comprometem a imagem. 

Um bom exemplo são algumas empresas de telefonia e telemarketing. Elas viraram motivo de piada devido a um insuportável cacoete usado pelas atendentes: a combinação de infinitivo mais gerúndio, em frases do tipo “Vou estar transferido a sua ligação”. Quem já não teve de escutar esse monstrengo?

O pior é quando a ligação não é transferida logo; o cliente tem que aturar por duas ou mais vezes o gerundismo. Se é para se chatear esperando, que seja pelo menos em bom português.

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