Linguagem e riso

Já comentei aqui a diferença entre comicidade e humor. A primeira se liga à situação, enquanto a segunda está na linguagem. O cômico é produzido pelo corpo. Já o humor decorre de “desvios” na estruturação lingüística.

Exemplos de cômico: uma mulher gorda escorrega numa casca de banana e cai, de pernas para o ar. Na hora de dizer o sim, um noivo desmaia diante do padre (o normal é que seja “ela” a perder os sentidos). 

Certa vez, íamos eu e Flávio Tavares pela avenida principal de Manaíra e vimos uma ambulância sendo empurrada por algumas pessoas. Estava no prego. A turma fazia um esforço enorme para deslocar o veículo, pois dentro havia gente passando mal. O contraste entre a urgência da situação e o meio disponível  para resolvê-la nos fez rir.  

No humor, o riso decorre de “equívocos” na interpretação das palavras. Eles se originam no que é ao mesmo tempo a riqueza e a deficiência de toda língua: a imprecisão. Da imprecisão nascem tanto os erros de gramática, quanto os efeitos de humor e de estilo. Ela permite que se dê a um enunciado aparentemente objetivo um sentido imprevisto, que por vezes faz rir. 

Maria Helena de Moura Neves dá exemplos disso em texto publicado no último número (12) da revista Língua Portuguesa. Vejamos um deles:

- Não deixe sua cadela entrar na minha casa de novo. Ela está cheia de pulgas.

- Diana, não entre nessa casa de novo. Ela está cheia de pulgas. 
A possibilidade de o pronome “ela” referir-se à cadela ou à casa levou o segundo interlocutor a distorcer as palavras do primeiro. Ele pode ter feito isso por ignorância ou por ironia. Certamente foi por ironia.

Na historinha abaixo, relatada por Viviane Rowe em artigo na mesma revista, o efeito humorístico decorre de a menininha ignorar o que seja O.B. Como é incapaz de ligar as palavras ao objeto, dá outro sentido ao discurso publicitário. Vejamos: 

Duas garotinhas de 8 anos conversam no quarto. Uma delas quer saber o que a outra vai pedir no Dia das Crianças. “Vou pedir um O. B.”. À pergunta da coleguinha sobre o que vem a ser isso, a menina responde: 

- Nem imagino, mas na televisão dizem que com o O.B. a gente pode ir à praia, andar de bicicleta, andar a cavalo, dançar, ir ao clube, correr, fazer um montão de coisas sem que ninguém perceba.