Lições da crise

            Não entendo quase nada de Economia, mas isso não me deixa complexado. Os próprios economistas entendem muito pouco do seu objeto de trabalho. Eles são ótimos em artigos para jornais e entrevistas para a TV, onde nos iludem com termos pomposos e teses obscuras, mas não escapam de ser atropelados pelos eventos.  

            Prova disso é a crise financeira que atravessamos. Ela se originou nos Estados Unidos, centro do pensamento econômico. Lá surgiram as modernas escolas de Economia, cujos princípios encaminharam o mundo para a livre-iniciativa e a exaltação do mercado. Se escolhemos o capitalismo, foi por causa dos argumentos convincentes de pensadores sobretudo norte-americanos.

 

Como explicar, então, que nesse país surja uma crise originada pelo desrespeito a princípios elementares, como o de que não se deve dar empréstimo a quem não pode pagar? Qualquer dono de quitanda sabe que o excesso de dívidas, cedo ou tarde, leva o devedor à inadimplência; os contadores e economistas dos grandes bancos americanos desconheciam esta singela verdade!

 

Dizem que a causa da crise foi a “bolha” do mercado imobiliário norte-americano. Passaram a vender imóveis caríssimos a pessoas da classe média, cuja renda mensal era às vezes inferior às prestações. A explicação faz sentido, pois ilustra um fenômeno que hoje se observa em várias partes do mundo – inclusive em nossa João Pessoa: o aumento insensato e abusivo do preço dos imóveis. Muitos preferem deixar de vender, a negociá-los por quantias mais baixas.

 

Certamente fazem isso porque sabem que sempre haverá compradores, pois nossa classe média é igual à de todo o mundo e não resiste à tentação de morar em edifício “nobre”, de preferência com nome em inglês. Um desses “Palace”, “Place” ou “Center” não sei o quê, geralmente enfeitado com um “’s” do genitivo. Não é difícil que, no futuro, tenhamos por aqui uma “bolha” – mas será bolha de país pobre, cujo estouro não afogará em medo e incerteza o mundo.

 

Dizem que o melhor das crises é que elas nos fazem tirar lições. Dentro da minha modesta compreensão dos fatos, vou tratando de tirar as minhas. Uma delas é que hoje se especula mais no mercado imobiliário do que na bolsa de valores. Nele é que, pela ânsia desmedida de lucro, perdeu-se a sintonia entre custo e renda, trabalho e capital.   

 

Outra lição é que a garantia do capitalismo não está nos bancos, como se apregoa para justificar os ganhos estratosféricos dessas instituições, mas nas reservas monetárias dos governos. Os banqueiros querem que o Estado seja pequeno e não se intrometa em seus negócios, mas é dele que se socorrem quando estão, como agora, prestes a entrar em colapso. Por imprevidência, má-fé, ou as duas coisas juntas.

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