Lembranças do velho Pio XI (II)

Alinhei na crônica passada algumas lembranças do velho Colégio Diocesano Pio XI, de Campina Grande, que freqüentei quando era menino e onde tive algumas experiências que muito me marcaram. O colégio era dirigido por Emídio Viana, padre e meu tio, e foi nele que recebi os primeiros estímulos para o que seria, depois, o meu ofício – ensinar. Não que ali tivessem me dado alguma instrução especial no domínio das letras, das ciências ou das artes. Nada disso. As experiências a que me refiro foram espontâneas, de ordem sobretudo afetiva, e se imprimiram involuntariamente no menino que eu era. Decorreram do que eu via, do que eu notava, do que inconscientemente eu selecionava num ambiente onde se falava de aulas, livros, reunião de professores. 

Esse tipo de influência, como sabem, é decisivo. Ele se impregna de modo profundo no mais íntimo e fundamental de nós. Imagino que a minha resistência em ser médico, a qual me faz largar o curso no quarto ano, decorreu de um apelo comandado pelas lembranças, pelas vivências, pelas impressões plantadas em mim nessa essa época. Acho que devo ao Pio XI, onde primeiro vi os protagonistas de uma sala de aula, o fascínio por esse teatro sem drama que é o magistério.

Falei de uns livros antigos, amontoados no escuro primeiro andar do colégio. E de como a visão dessa biblioteca semidesfeita suscitou em mim a atração pela leitura. (Dirá o leitor que fantasio. Pode ser. Não há memória sem alguma fantasia.). Mas será preciso referir também a influência do andar de baixo, onde ficavam as classes ativas, a secretaria, a diretoria e a saleta anexa.

Esta saleta era onde os “maus elementos” ficavam de castigo, em pé, olhando para a parede ou para um esqueleto que servia às aulas práticas de anatomia. Espécie de câmara de tortura moral, o pior de estar nela não era agüentar o olhar desorbitado da caveira. Esse era pouco, era quase nada diante da tortura maior: ser surpreendido, naquela solidão de delinqüente, pelo meu tio Emídio. Quem ficava ali de castigo torcia para que ele ou estivesse fora, pois dava aulas de latim no colégio estadual, ou não saísse da diretoria pelos longos minutos que durassem o suplício. 

Certo dia brinquei mais do que o devido e a professora não teve dúvidas. Mandou-me ficar em pé na saleta fatídica. De nada valeu a prerrogativa de ser sobrinho do diretor – a disciplina era para todos. Levantei-me acabrunhado, as faces em fogo, e trôpego fui me postar entre a parede e o esqueleto – que estava ali, certamente, por algum inconfessável motivo estratégico. Imagem concreta da morte, estava ali para zombar dos que não queriam nada com a vida. Com o seu sorriso estático e sem alma, parecia comentar: “Olha para mim, vândalo. Vê o destino que te aguarda e procura ser correto e decente nos teus atos. Amanhã serás eu e já não poderás lamentar o aquilo que, por indisciplina e irresponsabilidade, fizeste da tua vida.”. 

Fiquei ali por infindáveis minutos, ouvindo o esqueleto. A saleta era abafada. E houve um momento em que me refresquei no meu próprio suor. De onde estava, via o tio Emídio na sala vizinha, lendo uns papéis ou conversando, a intervalos, com o pessoal da secretaria. Meu pavor era que ele se levantasse e fosse fazer a ronda nos corredores, conforme era seu hábito. E foi o que fez em dado momento, pois hábito não se muda. 

Levanta-se, olha o relógio, e de repente a batina esvoaça rente a mim e prossegue, rumo aos corredores. Na passagem, desloca um vento que me provoca um calafrio. Tudo indica que não me viu. Nem quando esteve de volta, minutos depois, o rosto olhando para a frente. E, no entanto, sei que isso não é verdade; ele me notou e fingiu não me ver. Fiquei devendo isso a Emídio. Por sua afeição, por seu respeito ao sobrinho estimado, saí incólume daquele suplício moral. E àquela saleta não voltei mais nunca.