“Juventude, divino tesouro” (Antônio Carlos Villaça)

 

 

Apresentação a “O evangelho da podridão”

 

 

“Juventud, divino tesoro”, cantou o poeta nicaraguense Rubén Darío e Manuel Bandeira gostava de repetir. No seu discurso de 25 de agosto de 1947, a que assisti (eu tinha 18 anos), sobre o Itinerário de Pasárgada, repetia comovidamente a exclamação de Darío.

Leio o ensaio oportuno e penetrante de Maria José de Queiroz (que a gente nunca sabe se está em Paris, Frankfurt, Copacabana ou Belo Horizonte) e encontro esta palavra lúcida do mesmo Rubén Darío, que esteve aqui: “A cultura europeia adquirida nos toma estrangeiros em nossos países; quando chegamos à Europa, quer dizer, à França, descobrimos a verdadeira pátria.” (Maria José de Queiroz, A América: a nossa e as outras).

Quando ouço críticas à juventude brasileira, fico triste. Pois há uma juventude que está criando, está trabalhando, está construindo o futuro. “Ó vida futura, nós te criaremos”, como disse Drummond, o hoje nonagenário (juvenil). Confio cada vez mais na mocidade brasileira, viva, atenta à circunstância, ávida de saber e de agir.

Ainda agora, tive a prova de que os moços estão à altura de si mesmos. Um deles, professor universitário ainda tão jovem, mestre competente de literatura na sua Universidade Federal da Paraíba, Chico Viana, acaba de escrever e defender com êxito uma longa e maduríssima tese de doutorado sobre Augusto dos Anjos – a melancolia em Augusto dos Anjos. Defendeu-a aqui na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Fiquei impressionadíssimo com esse ensaio de alto nível. Um rapaz que trocou a medicina pela literatura e sabe ler a obra Augusto dos Anjos com uma profundidade, uma verdade, uma consciência crítica de velho scholar. Quero louvar em Chico Viana o seu rigor. O seu obstinado rigor, como em Valéry. E em Da Vinci. Não diz uma palavra que não se documente, com espírito de minúcia e, ao mesmo tempo, com amplidão de perspectivas.

Augusto dos Anjos esperou 80 anos para encontrar o seu intérprete. O seu crítico definitivo. Cita Paul Ricoeur, no seu grande livro Da interpretação, que mereceu a crítica severa do dominicano Jacques Pohier. Mas tudo que ele cita de autores europeus se integra admiravelmente na sua visão brasileira, numa síntese autenticamente nossa, sem nada do europeísmo artificial, de que falava Rubén Darío.

Um moço de 1912 é compreendido por um moço de 1992. Antonio Carlos Secchin se entusiasmou com essa tese. No segundo semestre de 1912, há 80 anos, aparecia o livro de poemas Eu, de um rapaz da Paraíba, que tinha 28 anos e morreria com 30, desconhecido, obscuro, sem que o seu livro de estreia tivesse realmente sido notado. E muito menos consagrado. Esse diálogo de moços através do tempo me comove.

Ainda conheci o irmão de Augusto, já velhinho, passeando como uma sombra, solitário e algo trágico, pelos corredores e salões do Copacabana Palace, onde morava. Era um fascinado pela poesia do irmão, como Órris Soares ou como Ademar Vidal, que foi aluno de Augusto. Uma poesia por estampidos, como notou Manuel Bandeira.

Gilberto Freyre foi um dos primeiros a valorizar essa criação nervosa, marcada pela angústia. E por um cientificismo intrigante. Uma das maiores preocupações subjacentes à extraordinária poética de Augusto é a de algo perdido no passado do homem, uma ruptura, a falta de unidade. Essa perda terá projetado o homem no domínio das antíteses aparentemente
inconciliáveis e dilacerantes. Uma espécie de saudade interior.

Chico Viana magistralmente vê na obra trágica de Augusto dos Anjos a sombra do pecado original. Pena que não tenha citado o livro de Michel Labourdette sobre o pecado original. Mas tudo aqui aparece – o afeto melancólico, o luto pelo objeto perdido, o sentimento de culpa, o desejo de destruição, efeito da pulsão de morte. E há um perene impulso tendente à renovação, à vida nova. Apesar da mácula e da mágoa.

Augusto deseja um novo homem. E vibra nele uma sutil musicalidade que não escapou à argúcia de Cavalcânti Proença. Uns sons subterrâneos. E o Eu teve um sucesso estrondoso. Aqui tenho comigo a 31a edição, de 1971. Augusto dos Anjos é um dos poetas mais lidos do Brasil.

Os mil exemplares da primeira edição custaram ao poeta e a seu irmão Odilon 550 mil-réis, de 1912. Eu foi tão procurado como As primaveras, de Casimiro, as Espumas flutuantes, de Castro Alves, asPoesias, de Bilac, as obras de Drummond e Bandeira. Carpeaux o considera o mais original, o mais independente dos poetas mortos do Brasil.

A morte do poeta só mereceu aqui no Rio o artigo do primeiro Antônio Torres, entusiasmado. E muitos anos depois, Francisco de Assis Barbosa e Antônio Houaiss lhe dedicariam a sua crítica fraternalmente compreensiva. O povo o ama. O povo o lê. Esse poeta popular revive agora, inteiro, em profundidade, na tese luminosa de um moço, tão sério, tão tímido. Alô, Chico Viana, sua obra honra o Brasil. Ao acabar de lê-la e de anotá-la, exclamei, confiante: viva o Brasil! (Transcrita do “Jornal do Brasil”)