Frei Galvão

O Brasil vai ter seu primeiro santo. Ao longo da nossa história tivemos mártires informais, indivíduos que se sacrificaram por uma causa, por um ideal, mas que não tinham virtude suficiente para promover milagres. 

Embora não reconhecidos pela Santa Sé, esses fantasmas ou simulacros de santos têm um efeito concreto sobre a maioria das pessoas. Sobretudo para a população carente e miserável, eles vêm-se constituindo no apoio e na esperança que torna possível, apesar de tudo, viver. 

O curioso é que levamos cinco séculos, meio milênio, para merecer o nosso primeiro santo – enquanto os ladrões, os assassinos e os pulhas proliferaram desde a primeira hora. A santidade é mesmo difícil. Um pensador católico, Leon Bloy, captou esta inconfessa aspiração de todos nós: não somos santos, e nada nos redime dessa dura impossibilidade.

A idéia de um brasileiro santo nos soa estranha, e vamos levar algum tempo para nos acostumarmos com ela. Afinal de contas, nossa índole tem sido mensurada a partir de modelos negativos. Desde cedo aprendemos a nos criticar, a não nos levar a sério e a rir de nós mesmos. 

Um de nossos símbolos é Macunaíma, herói que debica do próprio caráter afirmando com um estouvado cinismo que não o tem. Não imaginávamos que de nosso turvo jardim pudesse rebentar uma flor aureolada, uma voz piedosa que viria fazer a ponte entre o homem e o Criador. 

Tanto não acreditávamos em santos indígenas que até inventamos que Deus é brasileiro – uma forma de nacionalizar o todo-poderoso e assim justificar, por uma espécie de supercompensação, nossos inviáveis pendores para a santidade.  

Mas, enfim, comprovou-se o segundo milagre e Frei Galvão será dentro de alguns dias canonizado. Isso nos deixa contentes, pois hoje mais do que nunca andamos necessitados de um embaixador celestial. Com um crescimento pífio de 2% e a globalização nos atropelando como se fôssemos a escória do mundo, precisamos de uma voz poderosa que interceda por nós. Amém.

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