Fé na razão (a redação do Enem 2016)

       Mais uma vez o tema de redação do Enem surpreende. “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil” não é bem o que os professores e os alunos esperavam. As apostas se concentravam em crise econômica, justiça com as próprias mãos, problemas de mobilidade urbana, políticas de educação inclusiva ou novo papel dos idosos numa sociedade da qual participam cada vez mais.
     A surpresa, porém, não vai gerar protestos dos alunos. O tema escolhido permeia discussões que, de algum modo, fazem parte do seu cotidiano. Além do mais, correlaciona-se com outros frequentemente trabalhados em classe, como o do preconceito contra as minorias e o da aversão ao que é diferente. É dentro desse espectro de ódio e rejeição que se inclui a intolerância religiosa, e muitas das medidas apontadas para debelar o preconceito contra as diferenças servem para combatê-la (o que já é uma boa pista para as propostas de intervenção).
         Os que criticarem o tema o farão pelo que presumivelmente há nele de subjetivo e, digamos, dogmático. Religião, afinal de contas, pertence ao foro íntimo de cada um. Essa crítica contudo não procede, pois a banca teve o cuidado de evitar qualquer discussão quanto a esse ponto ao reconhecer de antemão que a intolerância existe. Ou seja: o tema não é a intolerância (se há ou não), mas sim os meios de se opor a ela. Assim, os que professam seus diferentes credos não têm motivos para defendê-los por se sentirem rechaçados, ou mesmo discriminados, de modo que argumentar neste sentido seria afastar-se do tema.
      A despeito do adjetivo “religiosa”, não existe no tema nenhuma conotação metafísica ou nenhum apelo a que o candidato defenda sua religião. Tampouco os que não creem estão convocados a explicar os motivos da descrença. O tema remete, na verdade, a valores racionais e éticos ao postular o respeito à igualdade e a crítica à discriminação. Ao mesmo tempo salvaguarda a laicidade do Estado, que como guardião constitucional deve defender o direito de todos a professar suas crenças.
       O candidato deve ter cuidado para não cair numa das armadilhas citadas acima e, com isso, afastar-se do foco temático. Como escapar disso? Primeiro, detendo-se nas causas da intolerância religiosa (históricas, sociais, intelectuais); não há dúvida de que as duas primeiras concorrem para que determinadas religiões, como as de origem africana, sejam discriminadas. Segundo, fazendo o que a banca pede, ou seja, indicando os caminhos para combater a intolerância. Eles passam, obviamente, pela atuação de instituições como a família e a escola, assim como pela ação rigorosa das instâncias responsáveis por punir os transgressores. 

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