Entrevista a Silvana Cibelle

Chico Viana é professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba e doutor em Letras pela UFRJ, com tese sobre o paraibano Augusto dos Anjos. Entre 1994 e 2000, compôs a banca de elaboração do vestibular, na COPERVE – UFPB, onde também elaborou provas para concursos (TRE, TJ, etc.) e para o Processo Seletivo de Transferência Voluntária (PSTV).

 

Na área do vestibular publicou, em 2000, “A síntese no Processo Seletivo Seriado da UFPB” e em 2003 um “Resumo interpretativo dos livros indicados para o PSS – 2004”, da mesma universidade. Recentemente criou o Curso Chico Viana, que visa a preparar alunos para concursos públicos e para o vestibular.

 

Publicou vários ensaios acadêmicos e livros de crônicas, entre eles “A Sombra e a Quimera; ensaios sobre Augusto dos Anjos” (2000) e “A rosa fenecida” (2002).

 

Entrevista

 

Pergunta: Quem estuda Português para concursos públicos geralmente está acostumado a se deter apenas nas normas e regras mais comuns da gramática, não é mesmo? Isso é o suficiente para um bom desempenho nas provas?

 

Resposta: As avaliações de Língua Portuguesa para concursos e vestibulares têm cada vez mais centrado o seu foco na capacidade de leitura e interpretação. Mais importante do que classificar um termo sintático, ou justificar o uso de um acento, é o aluno ser capaz de compreender os mecanismos de coerência e coesão que dão unidade e sentido a um texto. A gramática é um instrumento auxiliar para isso, já que regula a chamada norma culta. Mas o aluno que se ativer apenas a um conhecimento passivo e nomenclaturístico da gramática seguramente não fará uma boa prova. É preciso aplicar esse conhecimento à habilidade de ler, interpretar e, eventualmente, produzir textos.

 

P.: Os concursos públicos também vêm explorando muito questões relacionadas à interpretação de texto? Isso é uma tendência que deve se manter nos concursos que vêm por aqui?

 

  1. : Sem dúvida. Nas provas de concursos públicos, a capacidade de interpretação  é fundamental. Mesmo porque, nesse tipo de provas, o questionamento da gramática é às vezes sutil e se dispersa numa massa textual densa. É preciso uma atenção redobrada tanto para o conteúdo quanto para a forma. A capacidade de leitura não é testada apenas nas questões interpretativas, mas também nas de gramática, cuja avaliação deixou de ser segmentada, pontual. Hoje ela contempla sobretudo os mecanismos gramaticais que dão coerência e unidade ao texto. Essa tendência deve se manter por muito tempo, até que outra teoria desbanque a chamada lingüística textual, que vem orientando o ensino do português nas últimas décadas.

 

P.: Nas provas de concursos, como são os enunciados relacionados à interpretação de texto? Quais os tipos de questões mais comuns?

 

Eles variam muito, dependendo do tipo de prova aplicado. O que têm de comum é a exigência de que o aluno seja capaz de entender as idéias-chave do texto, distribuídas em parágrafos centralizados em torno de tópicos frasais. O tópico frasal é sentença básica do parágrafo e deve ser apreendido para que, a partir dele, se hierarquizem as idéias do texto. Ler bem é distinguir idéias principais de idéias secundárias, terciárias, etc. Além desse trabalho eminentemente lingüístico, o aluno para bem interpretar deve ter informações de natureza sociocultural que o permitam articular o texto com o contexto, a língua com o mundo. Deve, enfim, ser um bom leitor.

 

R.: Como o candidato deve estudar para este tipo de prova? Estudar a partir de outras provas de Português é o melhor?

 

Resolver provas é um bom método de estudo, mas a tarefa do professor não deve se limitar a isso. A resolução de provas só funciona depois que o aluno recebe uma orientação teórica prévia, seguida de exemplos a ser avaliados. Tenho trabalhado a gramática a partir da produção textual dos alunos, o que funciona muito bem. A vantagem disso é que se objetiva o ensino dos conteúdos gramaticais, descartando-se informações secundárias, irrelevantes. Afinal de contas, já se foi o tempo em que o professor de português era admirado por saber detalhes que ninguém sabia – mas que, no fundo, não interessavam mesmo a ninguém. Em nossa época de objetividade, praticidade, o ensino da língua tem que ser prático e objetivo.

 

P.: Que tipos de conhecimentos em Português são exigidos com mais freqüência ? Em que assuntos o candidato não pode ter dúvidas?

 

Basicamente, exigem-se hoje os conhecimentos lingüísticos que promovem a compreensão (interpretação) e facilitam a produção textual. É muito importante, pois, conhecer os principais mecanismos de coesão e coerência (valor semântico dos conectivos, emprego dos pronomes relativos, significação das palavras, etc.), bem como conhecer a estrutura da oração e do período a fim de que se detectem problemas de pontuação. O aluno deve procurar resolver suas dúvidas ortográficas, já que a ortografia é uma espécie de cartão de visitas, bem como aquelas referentes à ocorrência da crase, que aparece com freqüência nas provas de português. Ferreira Gullar observou que a crase não foi feita para humilhar ninguém, mas infelizmente ela continua humilhando muita gente…

 

R.: Por fim, qual a orientação para quem vai fazer provas amanhã nos concursos do BNB e Incra? O que vale a pena ser revisado?

 

A orientação é que leiam uma, duas, três vezes os textos a ser interpretados, pois sem uma leitura muito cuidadosa não se faz uma boa interpretação. E revisem, além dos assuntos apontados na resposta anterior, tópicos de concordância, regência e colocação (tanto dos pronomes quanto do sujeito em relação ao verbo, pois a chamada ordem inversa comumente gera erros de concordância).

 

P.: O senhor acabou de criar o seu curso de português. Por que só agora fez isso e que planos tem para ele?

 

R.: A idéia de criar o meu curso é antiga, mas como professor em regime de dedicação exclusiva na UFPB eu não podia concretizá-la. Agora, que me aposentei, chegou o momento de tentar essa empreitada. Pretendo oferecer cursos de leitura, gramática e sobretudo redação, que é um domínio delicado e  difícil, para o qual é necessária muita experiência.