Entrevista a Allysson Martins

  Dossiê Sobre o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

 

Allysson Viana MARTINS

Thiago SOARES

Universidade Federal da Paraíba (UFPB), João Pessoa, PB.

 

 

1 – O novo Acordo Ortográfico foi postulado em 1990, mas entrou em vigorapenas no início de 2009. Você acredita que quais motivos serviram para oestopim de sua implementação?
R.: O motivo maior é que finalmente se perceberam as vantagens políticas epráticas do Acordo. Uma delas é unificar o português para mais facilmente transformá-lo em língua oficial da Unesco. Outra é favorecer o intercâmbio entreos países lusófonos e estreitar as relações entre eles.

 

2 – Tendo em vista que já houve vários encontros com o intuito de diminuir asdivergências entre as ortografias da língua portuguesa. Na sua visão, quais eram os motivos que impediam um acordo entre os países?

 

R.: O que retardava a aprovação do Acordo eram objeções sobretudo de naturezapolítica, como a resistência de Portugal em aceitar que o português do “colonizado” servisse de parâmetro para a língua do “colonizador”. Com aadesão de estudiosos e escritores portugueses, a exemplo de José Saramago, osobstáculos a sua implementação foram diminuindo. Entre nós que não houvegrandes resistências, mesmo porque o povo se manteve alheio a qualquer tipo dedebate sobre ele. Foi uma decisão de cúpula, mas nem por isso uma decisãoerrada. O Acordo tem pontos positivos e as regras por ele propostas vão serabsorvidas mais cedo do que se pensa.

3 - Dentre as mudanças do acordo ortográfico atual, quais você acha que sãomais significativas?
R.: As mais significativas ocorrem no emprego do hífen. Com as novas regras, ouso do chamado traço-de-união se tornou um pouco mais racional. Antes se distinguiam os prefixos, ou falsos prefixos, dos radicais; por exemplo: “auto-organização” levava hífen, pois o prefixo “auto” se ligava a palavra iniciada porvogal, mas “microônbus” se escrevia junto, pois “micro”, sendo um radical, juntava-se diretamente ao elemento que o seguia. Com a reforma, esse critériomorfológico cedeu a razões fonéticas e gráficas. Como “auto” e “micro” terminam pela mesma vogal com que se inicia o segundo elemento (a vogal “o”), separam-se por hífen os componentes dessas palavras. Ou seja: agora se escrevecom hífen tanto “auto-organização” quanto “micro-ônibus”.

 

4 – A princípio, quais as ambiguidades e dificuldades que iremos encontrar?

 

R.: Uma das dificuldades vai estar nas palavras compostas em que se perdeu anoção de composição. Diz a regra que se usa o hífen em compostos, paradistingui-los das locuções. Assim, “dedo-duro” se escreve com hífen porque éum composto, ou seja, nessa palavra a junção dos elementos gera um sentidonovo (o de “delator”). Já “dona de casa” constitui uma locução, pois nela osentido individual dois componentes se mantém; sendo locução, não tem hífen.

Há palavras compostas, no entanto, em que a noção de composição se perdeu.Por exemplo: “mandachuva” e “ferrovelho”. Nesses casos, o hífen desaparece. Oproblema é que nem sempre há consenso quanto às palavras que perderam anoção de composição. Segundo o texto do Acordo, em “paraquedas” essa noçãose perdeu, mas em “para-brisa” ou “para-choque”, não. Perdeu-se também em“bateboca”, mas não em “finca-pé”.  Como você vê, nem sempre é fácil decidir. Tem havido e ainda vai haver muita discussão sobre o assunto.

 

5 - Você acredita que as mudanças são válidas, do ponto de vista ortográfico emesmo político?
R.: São válidas, sim, sobretudo no aspecto político. Do ponto de vista linguístico há deficiências. Acho, por exemplo, que não havia razão para se suprimir otrema. Ele indicava, em palavras como “freqüente” e “tranqüilo”, que o conjunto“gu” não forma dígrafo, ou seja, que nesse conjunto o “u” é pronunciado. Agorase escreve sem o trema, por exemplo, tanto “freqüente” como “quente” – sendo esta palavra pronunciada /kente/, e a outra, /frekuente/. O ideal era que aortografia traduzisse a pronúncia.
6 – As mudanças já estão implementadas em seu cursinho? Como foi suapreparação e a produção do material?

 

R.: Aproveitei as férias de janeiro para reescrever os capítulos referentes a acentuação gráfica e emprego do hífen. Com a nova teoria, vieram tambémnovos exercícios. Procedi a essas modificações depois de ler e reler várias vezeso Acordo e os muitos comentários feitos a ele por estudiosos e jornalistas.
7 - Em 1971, você passou por uma mudança ortográfica, mas era ainda umestudante, sua preparação e preocupação foram diferentes?

 

R.: Sem dúvida. A reforma de 1971 aboliu um tipo de trema, que aparecia empalavras como “vaidade”, “gauchada” etc. Aboliu também o acento graveindicativo de subtônicas, presente em palavras como “sozinho” ou“rapidamente”, e o acento diferencial de timbre. (as exceções são as mesmas queconstam no atual texto do Acordo: a forma “pôde” (perfeito do indicativo doverbo “poder”, e optativamente “fôrma”. Nessa época eu cursava Medicina e dava aulas particulares de português. A reforma foi uma oportunidade deaprender mais sobre a fonética e a prosódia da nossa língua.

 
8 – A veiculação e repercussão desta mudança estão sendo maior do que a ocorrida em 1971? Você acha que quais são os motivos para isso?

R.: A reforma de 1971 não alterava o uso do hífen, por exemplo, e abolia um tipode trema que praticamente ninguém usava. O trema abolido agora tinha um valordistintivo do ponto de vista da prosódia (pronúncia) da língua.

 

 

9 – Há quem diga que Portugal não está satisfeito com as novas mudanças, afirmando que se está abrasileirando o português. Você acredita que as modificações no português de Portugal são mais intensas do que as nossas?

R.: Não acho que esteja havendo um abrasileiramento do português de Portugal.Não se pode falar em abrasileiramento se as mudanças não atingem o planosemântico nem o sintático do idioma.  Ortografia é convenção.  Permitir, porexemplo, que uma palavra como “facto” seja também escrita “fato” é apenas umaopção a mais de representá-la.