Com respeito ao Enem

A redação do Enem é mais uma vez objeto de polêmica. Tudo começou quando o jornal “O Globo”, depois de examinar mais de trinta textos enviados por candidatos que atingiram a pontuação máxima, detectou neles falhas de ortografia e concordância. Receberam nota 1000, por exemplo, alunos que escreveram “trousse” ou “enchergar” e deixaram de fazer a concordância verbal em frases como “Essas providências, no entanto, não deve ser expulsão”.

O estranho nessa atribuição de notas tão altas é que, entre as competências exigidas para uma boa redação, está o conhecimento da norma culta. Há desvios da norma que podem ser considerados leves, mas o Inep não considera que as falhas de concordância estejam entre eles. Pelo menos é o que se depreende do Guia que a entidade organizadora do Enem divulgou para orientar professores e alunos: “Desvios mais graves, como a ausência de concordância verbal,excluem a redação da pontuação mais alta”. Se esse tipo de falha impede que o candidato atinja a pontuação máxima, como justificar as notas 1000?

Alega-se que pode haver em redações gramaticalmente sofríveis um bom nível de informação e propostas para resolver as questões suscitadas pelo tema. O aluno que se saísse bem nesses requisitos não precisaria escrever um texto “correto”. O problema é que raramente quem se mostra informado e hábil em argumentar apresenta desvios gramaticais gritantes. A leitura, fundamental para que se tenha essas qualidades, constitui uma via indireta para o aprendizado da língua

A atribuição de nota 1000 a redações com erros como os apresentados na reportagem sugere que a banca não as leu com atenção. Ou, se leu, preferiu ignorar que o texto constitui uma entidade orgânica, estruturada, na qual os vários níveis linguísticos se articulam. É um equívoco separar conteúdo e forma, sob a alegação de que o aluno não sabe se expressar mas tem boas ideias. As boas ideias só se revelam quando expressas, do contrário ficam no plano das estimativas ou das intenções.

Ensino redação há vários anos e nunca dei nota 10 a um texto que contivesse erros de ortografia, pontuação, concordância. A experiência em sala de aula mostra que raramente os textos onde tais problemas aparecem têm qualidades “de conteúdo”.  Os bons alunos, que leem e por isso conseguem escrever, tendem a equilibrar informação e correção de linguagem. Quando erram, o fazem em aspectos pouco relevantes. É fácil distinguir uma troca de letras decorrente da especificidade do nosso sistema ortográfico, que tem base etimológica, de certas falhas que aparecem nos textos dos vestibulandos.

Costumo apresentar aos alunos as redações a que o Enem dá nota 1000 para que as tomem como referências. É constrangedor fazer isso quando nelas aparecem as falhas que costumo combater em classe. Vendo que tais deslizes não vão impedi-los de obter a pontuação máxima, que esforço irão fazer para evitá-los? O Enem não pode ser tolerante com esse tipo de infração, pois de certo modo orienta o que se deve fazer em sala de aula.

Também não pode deixar passar em branco brincadeiras como as de Guilherme Custódio Ferreira e Fernando Maioto O primeiro incluiu uma receita de miojo em sua redação. Achava que ia tirar zero, mas recebeu 560 pontos. Já o segundo resolveu testar a banca de outra forma: inseriu no texto o hino do Palmeiras. Seu propósito era “mostrar que os corretores não leem completamente a redação”. Esperava zerar, mas obteve 500 pontos.

As redações desses candidatos deveriam ter sido anuladas. Primeiro, por razões inerentes ao próprio texto; as inserções descabidas quebram a unidade e comprometem a progressão textual. Segundo, por motivos disciplinares para não dizer éticos. Um exame que se pretende o mais importante do país para o ingresso dos nossos alunos no ensino superior deve ser tratado com seriedade. Se o candidato faz esse tipo de brincadeira, mostra que no fundo não lhe dá valor e pouco lhe interessa passar ou não. Parece     que só os avaliadores não viram isso.