O fino da prosa

Rubem Braga (4)

João, o povo, na noite imensa, festeja a ti. Há fogueiras e amores e bebedeiras, mas eu não irei a festa nenhuma. Amanhã, João, esse povo continuará na vida. Por que o distrais com teus fogos, João? Amanhã, os pobres estarão mais pobres e os ricos os esmagarão, e muitos homens irão clamar nas cadeias, […]

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Marcel Proust

“A verdadeira arte prescinde de manifestos e se realiza em silêncio. (…) E talvez se aquilate melhor pela qualidade da linguagem do que pelo gênero estético o grau de perfeição do labor intelectual e moral. (…) Um livro eivado de teorias é como um objeto com etiqueta de preço. E esta exprime ao menos um […]

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Millôr Fernandes

     “O banheiro é o que resta de indevassável para a alma e o corpo do homem moderno e queira Deus que Le Corbusier ou Niemeyer não pensem em fazê-lo também de vidro, numa adaptação total ao espírito de uma humanidade cada vez mais gregária, sem o necessário e apaixonante sentimento da solidão ocasional.” (Em “Lições […]

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Allan Percy

       “A maior parte das guerras psicológicas é iniciada mais pelo que não se diz do que pelo que se diz. Não dizer as coisas a tempo é um importante fator de estresse no mundo tumultuado em que vivemos, pois possibilita interpretações equivocadas que acabam pesando contra nós. Nietzsche afirma que é melhor […]

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Umberto Eco

“Imaginar-se como elemento necessário na ordem do universo equivale, para nós, gente de boas leituras, àquilo que é a superstição para os iletrados. Não se muda o mundo com ideias. As pessoas com poucas ideias estão menos sujeitas ao erro, seguem aquilo que todos fazem, não incomodam ninguém, têm sucesso, enriquecem e alcançam boas posições, como […]

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Mario Quintana

Não me sai da lembrança um professor dos meus tempos deginásio que, ao dar-nos o tema para a Redação de Português, dizia: ‘Não adianta escreverem muito, meninos, porque só leio a primeirapágina; o resto, eu rasgo’. E assim nos dava, ao mesmo tempo, aprimeira e a melhor lição de estilo, obrigando-nos a reter as rédeas de Pégaso e a dizer tudo (que, aliás, não podia ser muito) nas trintalinhas do papel almaço, contando título e assinatura.

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Gonzaga Rodrigues

O rumor da chuva confunde o sono do homem, despertando-oantes da manhã. Ele acorda sem saber se chove lá fora ou nele. Piorainda: se é a chuva ou ele mesmo quem chove. Sente-se úmido,aquoso, de uma molhadeira que vem menos de fora do que de pejadasnuvens interiores. Em certos casos a chuva tem disso – faz a gente se inundar denós mesmos, o inverno de dentro bem mais frio e nostálgico que o defora. O homem se encolhe como se quisesse reverter à antiga posiçãode nascituro. Quanto mais se apega ao lençol mais interiormente se descobre. Sem dúvida é ele quem está molhando a natureza. Quemestá rumorejando no telhado. Quem está chovendo.

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Graham Greene (2)

      Nunca teria admitido que o fim acabara muito antes: menostelefonemas sem motivo, as brigas que provoquei porque percebera omotivo do fim do amor. Tínhamos começado a olhar para além doamor, mas só eu percebi o modo como estávamos sendo levados. (…)Quando esgotamos nossas possibilidades humanas, temos que nosiludir com a fé em Deus, como um gourmet que exige molhos cadavez mais complicados em sua comida. Olhei para o vestíbulo, vaziocomo uma cela, com aquela terrível pintura verde, e pensei: ela queriaque eu tivesse uma segunda chance e aqui está ela: a vida vazia,inodora, antisséptica, a vida de uma prisão. E a acusei como se assuas preces tivessem realmente operado a mudança: o que foi que lhefiz para você me condenar a vida?

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Rachel jardim

      Eu sabia que me restava um pouco de beleza e, intacta, a minhavocação para o amor. Não havia muito o que fazer com isso. Tinhasido abandonada por causa de uma menina de vinte e um anos, e pormais que me quisesse dizer palavras consoladoras, olhar o meu corponu diante do espelho de frente e de costas, minuciosamente, pensarque ainda faltava um pouco para a decadência, e que devia aproveitar,eu sabia que ia lutar um jogo desigual, eu era uma luz evanescente,tinha perdido o meu esplendor. Era uma luz igual àquela que cobria ocume das montanhas de Minas e que eu chamava de sol das almas, uma luz em agonia.

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Rubem Braga (3)

Basta uma pessoa ter um nome saindo sempre no jornal ou narevista para que isso dê a ilusão a outras de que ali está alguém quelhe pode ser útil, alguém que possui alguma faculdade superior, capazde orientar sua vida, resolver sua angústia, ajudar os seus sonhos. (…) Com uma coluna de jornal ou uma página de revista, quinzeminutos de rádio ou cinco minutos de televisão e um pouco decinismo ou paranoia – eu convenço a milhares de pessoas de que oimportante na vida é pentear os cabelos da esquerda para a direita,votar em mim e usar uma gravata roxa, se for homem, ou uma fitaroxa, se for mulher, e no lugar de dizer “bom-dia” dizer “saravá piu-piu”.

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