A redação do Enem 2013

O tema de redação do Enem 2013 causou surpresa em muita gente, mas não foi considerado difícil. A relação entre álcool e direção aparece na mídia há algum tempo, com maior ou menor relevância, e quem acompanhava o noticiário tinha o que dizer sobre os efeitos da Lei Seca.

O tema foi uma aposta de grande parte dos professores no ano passado; este ano, com raras exceções, a preparação em sala de aula deu ênfase a outros tópicos (fontes de energia, distribuição da água no mundo, desafios do envelhecimento populacional etc. etc.). Houve quem, sugestionado pelo tema do ano anterior (a imigração), direcionasse o treinamento para assuntos correlatos, ou seja, que envolvessem a relação do Brasil com outros países. Alguns apostaram nas manifestações que sacudiram o País no primeiro semestre, mas certamente a banca não aproveitaria assunto tão óbvio.

Se o tema deste ano foi “fácil” e oportuno, a maneira como o apresentaram deixou a desejar. Sabe-se que ainda é grande no Brasil o número de acidentes automobilísticos (muitos com mortes) provocados pela ingestão de bebida alcoólica. Esse dado problemático do tema, e que o justificaria como proposta de uma redação argumentativa, não foi sequer mencionado pela banca.

Pelo contrário: dois dos três textos motivadores só destacam os aspectos positivos da Lei Seca. No primeiro, saúda-se (com justiça) a promulgação da lei.  No segundo, referem-se estatísticas mostrando como, depois dela, diminuiu o número de vítimas e de atendimentos médico-hospitalares ligados ao consumo de álcool.

Esperava-se que o terceiro texto motivador trouxesse um pouco “o outro lado”; que mostrasse, por exemplo, a resistência por parte de alguns em cumprir a lei; ou eventuais falhas na fiscalização, e assim por diante. Informações desse tipo serviriam de subsídio para os candidatos (toda tese, afinal, comporta os argumentos de oposição ou ressalva).

Em vez disso, o que o terceiro texto traz é a estratégia de uma agência de comunicação que usou ímãs em bolachas para descanso de copos, e em tulipas de chope, para mostrar que existe uma repulsão “magnética” entre beber e dirigir e uma atração entre beber e chamar um táxi. O relato é interessante, mas um pouco confuso. Os candidatos devem ter levado um bom tempo para entendê-lo, por isso imagino que poucos o aproveitaram. Mas não perderam muita coisa, pois o terceiro texto quase nada acrescenta à visão crítica do tema.

Levando em conta que só se apontaram os aspectos positivos da lei, restava ao aluno parafrasear as informações contidas nos dois primeiros fragmentos motivadores. As chamadas sugestões para resolver o problema, ou “propostas de intervenção solidária”, já se insinuavam no primeiro deles (participação de estados, municípios e sociedade em geral). Era só seguir a trilha apresentada pela banca.

Enfim: tema bom, tematização insuficiente. Diante disso, não dá para fazer um brinde aos elaboradores (mesmo sem dirigir depois). Quem sabe no ano que vem?