“A queda – As memórias de um pai de 424 passos”

O acaso escapa a qualquer tentativa de explicação. Mesmo assim procuramos dar um sentido às coisas, e a arte (particularmente a literatura) é um dos meios com que tentamos fazer isso. O outro é a religião. Existe ainda um terceiro: a ciência mas esta, embora nos traga evidências confiáveis, não tem a amplitude das outras duas. A ciência não envolve (ou envolve muito pouco) nossas fantasias e emoções. Não há poesia em fazer exames laboratoriais ou em tomar remédios, apesar da reconhecida eficácia que tais recursos possuem.

Essas considerações me vêm a propósito de “A queda  As memórias de um pai em 424 passos”, em que Diogo Mainardi conta a história da paralisia cerebral que acometeu seu filho Tito. O livro me parece uma torturada busca de explicação para o acaso, que foi favorecido, é verdade, pela atuação de uma obstetra negligente. Com pressa para deixar o hospital e aproveitar o fim de semana, ela perfurou a placenta com o objetivo de fazer logo o parto. Como demorou muito entre uma ação e outra, o feto passou um tempo enorme sem oxigênio, o que acabou por danificar-lhe irreversivelmente o cérebro

A história desse parto e as subsequentes tentativas do menino para andar são a matéria do livro. Absorvido no problema do filho, o narrador acompanha seus primeiros meses de vida e tenta compreender a peça que o destino lhe pregou. O ponto de partida é o local onde o parto ocorreu: o prédio da Scuola Grande di San Marco, construção arquitetada por Pietro Lombardo em 1489, e onde em 1808 se instalara o hospital de Veneza. Ao se deparar com o frontispício da bela construção, o pai comentou com a esposa, que, apreensiva, parecia adivinhar algo ruim: “Com esta fachada, aceito até um filho deforme.”

Toda a narrativa se desenrola em torno dessa irônica afirmação, que testemunha a fascínio do narrador pela arte e parece motivar um difuso sentimento de culpa. “Eu só conseguia associar a arte perfeita de Pietro Lombardo a um parto igualmente perfeito”, afirma ele a certa altura. A perfeição da obra do italiano levara-o a menosprezar as advertências sobre os erros médicos já ocorridos no hospital. Essa ingênua tentativa de identificar a arte com a vida deflagra uma série de referências a livros, autores, personagens e eventos históricos que de alguma forma se relacionariam com a paralisia de Tito. E tudo termina tendo a ver com ela, que é mais um signo dentro do universo de signos no qual o pai se acostumou a viver e interpretar o mundo.

O importante é que essa excursão erudita não se espraia em considerações inúteis e sempre acaba voltando ao centro que a motivou. Por esse controle da narrativa, transparece de modo contido mas pungente o sofrimento de um pai que diz ter mais de uma vez chorado e chega a confessar: “…eu sempre pensara que, se meu filho permanecesse em estado vegetativo, eu esperaria que ele morresse. // Depois do primeiro contato com Tito no corredor do claustro do hospital de Veneza, tudo se transformou. Eu só queria que ele sobrevivesse, porque eu o amaria e o acudiria de qualquer maneira.” Saímos da obra convencidos de que a beleza é uma forma de nos compensarmos das armadilhas do acaso, venha ela sob a forma de uma fachada arquitetônica ou de um grande livro.