125 anos de Augusto dos Anjos

Se fosse vivo, Augusto dos Anjos completaria amanhã 125 anos. Morreu novo, com 30, poucos meses depois de conseguir um emprego estável como diretor de um grupo escolar em Leopoldina. Até então vivera incertamente no Rio, entre aperturas financeiras, mudando de casa quando o salário não dava para pagar o aluguel.

Mas deixemos de lado o homem e falemos um pouco da sua obra. Ou melhor, de alguns de seus poemas. Ou ainda nem isso: de um poema em particular. Não me refiro a monumentos como “As cismas do destino” ou “Os doentes”, mas a uma construção modesta e pungente intitulada “Tristezas de um Quarto-Minguante”.

Esse poema, não sei por quê, me toca de modo particular. Ele não tem a grandeza dos outros dois, mas impressiona pela “sinceridade” quase confessional, o tom apocalíptico, ovigor plástico das imagens. O poeta começa falando da sua solidão na madrugada do engenho: “Quarto minguante! E, embora a lua o aclare,/ Este Engenho Pau d’Arco é muito triste…/ Nos engenhos da várzea não existe/ Talvez um outro que se lhe equipare!

A lua, “vista do vidro azul”, é comparada prosaicamente a um “parelelepípedo quebrado”, numa imagem que alia o rigor visual a um uso já moderno da língua.  A visão do astro concorre para que o “eu lírico” se sinta oprimido e lamente “não ser mais tempo de milagre”, quando então poderia se livrar da opressão mental.

O contraste entre essa fantasia ingênua e o que vem a seguir é doloroso, pois em vez do milagre redentor “aumentam-se-(lhe) os grandes medos” e vai-lhe “crescendo a aberração do sonho”. Esse é um movimento comum em grande parte dos poemas longos de Augusto: o esforço de pensar, em vez de levar a uma compreensão maior das coisas, conduz a uma visão fragmentada do homem e do universo.

A partir daí emergem as fantasias de um inconsciente que, paradoxalmente, não se liberta do controle da razão. O poeta vê e julga as imagens do seu delírio, chegando a secomparar a um doente mental: “A lâmpada a estirar línguas vermelhas/ Lambe o ar. No bruto horror que me arrebata,/ Como um degenerado psicopata/ Eis-me a contar o número das telhas!”

Nessas imagens a percepção do distúrbio psíquico correlaciona-se com o dilaceramento do corpo, eleito como sede das agressões de uma consciência culpada: “Vêm-me à imaginação sonhos dementes./ Acho-me, por exemplo, numa festa… /Tomba uma torre sobre a minha testa,  /Caem-me de uma só vez todos os dentes!”

Com o tempo, a angústia vai cessando. O nascer do sol revela ao poeta oespetáculo da natureza exuberante, sexualizada, que serve de contraponto a suas mórbidas fantasias: “Pelos respiratórios tênues tubos/ Dos poros vegetais, no ato da entrega/ Do mato verde, a terra resfolega/ Estrumada, feliz, cheia de adubos.”.