Melancolia e ironia não são polos antagônicos, mas complementares. De modo geral, só restam ao melancólico duas saídas: sucumbir à sua dor ou aceitá-la, às vezes ultrapassando-a, por meio da postura irônica. Machado de Assis é um bom exemplo disso. Outro é Augusto dos Anjos.

No poeta paraibano é mais difícil perceber-se a ironia, pois de seus textos está ausente o riso. Nada parece aproximá-lo do humor machadiano, entendido como o velado sarcasmo que leva o homem a rir dos outros e, sobretudo, de si mesmo. Mas há no autor de Eu e outras poesias um fundo irônico, que é determinante da sua visão de mundo. Para percebê-lo é preciso, como faz Rosilda Alves Bezerra, pesquisar os diversos sentidos da ironia; remontar aos primórdios do conceito, na literatura grega, e apontar algumas de suas modificações ao longo da História; investigar suas articulações com a melancolia para, inevitavelmente, confirmar a estreita ligação que existe entre elas. Esse vínculo é particularmente intenso na chamada ironia romântica, uma das maiores expressões da tragédia do eu.

A poesia de Augusto dos Anjos exemplifica como poucas esse impasse. O eu é trágico porque é só, descrê do amor humano e não pode escapar ao seu Destino. No entanto a sua falta não é a hamartia do herói grego tradicional, vítima do acaso, mas a transgressão primeira que, segundo o Cristianismo, incrimina a todos os homens.

A partir da sugestão de um dos versos do poeta paraibano, Rosilda resume esse complexo de perdas e penas na categoria do “infausto”. Com isso, estabelece um contraponto fúnebre com o que há de intelectualmente jubiloso na ironia machadiana. Nesta ainda é possível sorrir, graças a uma compreensão superior da vida. Na ironia infausta não há espaço para a alegria, que se afigura ao eu lírico uma doença – sendo a Tristeza a sua “única saúde”. Conforme observa a autora com argúcia, “na poesia augustiana, nunca a alegria é maior que a almejada e a dor sempre a excede”.

Falar da ironia infausta é falar dessa Dor “excessiva”, que no poeta atinge dimensões cósmicas. Ela se amplia graças a um animismo panteísta que impregna a natureza e o universo, mas sua fonte é mesmo a consciência. Marcada pela culpa, a consciência faz o eu lírico projetar na matéria as marcas da degradação e do desmoronamento. Rosilda vê nessas imagens o desencanto consequente à busca do objeto perdido, a qual “se torna um fluxo permanente, um movimento ininterrupto (…), um devir desse homem caído, que anseia pela salvação”.

Nisso concordamos, pois a Queda nos parece uma das maiores, se não a maior fonte de angústia para o eu lírico de Eu e outras poesias. Em várias passagens da obra há imagens que demonstram o descontentamento com o ser humano, presa dos instintos e vítima de uma miopia intelectual que o afasta da transcendência. Elas auguram o nascimento de um novo homem, não maculado pela Falta. O desejo de “outra Humanidade” se reafirma em tom veemente e desesperado em poemas como “Os Doentes”, que é uma alegoria da nossa condição de seres pervertidos e mortais. Uma coisa em função da outra, pois segundo o Cristianismo nós morremos porque somos pecadores.

Alegra-nos ver que, por esse aspecto, Rosilda chega a conclusões semelhantes às a que chegamos n’O evangelho da podridão. E o faz de forma independente e criativa, complementando o acervo psicanalítico que nos serviu de base com novos subsídios teóricos. Pelos óculos da ironia, ela pôde enxergar melhor as contradições que alimentam a melancolia do poeta; dilacerado pelos dualismos, ele aspira à Unidade – esse danado “Número Um” – que só vai encontrar na morte.

Este livro é sobretudo um trabalho acadêmico competente. Deriva-se de uma tese, mas não tem o ranço por vezes comum nesse tipo de produção intelectual. Nele o rigor do método e o detalhamento das análises textuais não sufocam a vibração e o dinamismo que existem na poesia do paraibano. Pelo contrário, servem de veículo para a ilustração de um pathos que se enraíza no desespero e na solidão.

Se por vezes há no trabalho redundância de informações, isto soa como uma tentativa de espelhar a angústia do poeta. Sob a égide da pulsão de morte, ele tende a repetir obsessivamente imagens que parecem fazer parte de um delírio. Ironicamente, um delírio promovido pela exaustiva recorrência de elementos intelectuais, que se revelam inúteis para suprir o vazio provocado pelo desencanto do espírito.

O conceito de ironia é bastante amplo, daí a dificuldade para quem se propõe a aplicá-lo numa obra literária. Ele se insere numa perspectiva tanto retórica quanto filosófica, e mesmo nesse âmbito oscila de acordo com características doutrinárias, históricas e temperamentais. A visão de ironia não é a mesma em Sócrates, Muecke ou Kierkegaard. Rosilda leu esses e outros teóricos e soube extrair deles o que lhe pareceu essencial e, sobretudo, funcional. Não se aprisionou a ninguém. Deixou que as próprias imagens poéticas lhe servissem de guia, orientando o curso de suas reflexões. Esse é um dos méritos do seu trabalho.

Com ele, a bibliografia sobre Augusto do Anjos ganha uma obra de porte. Em especial, para que se compreenda a complexa e por vezes enigmática relação do poeta com a natureza. O ironista sabe que um abismo o separa do elemento natural, e vê nessa diferença a matriz da sua culpa. Rosilda traz esclarecedores subsídios para que se compreenda como, na obra do paraibano, o sujeito lida com os vários aspectos desse conflito – que afinal é de todo homem.

(O texto acima constitui o prefácio do livro A “ironia infausta” em Augusto dos Anjos, de Rosilda Alves dos Santos, a ser publicado em breve pela Editora da UEPB.)

*Chico Viana é professor aposentado da UFPB e doutor em Teoria da Literatura pela UFRJ com a tese “O evangelho da podridão: culpa e melancolia em Augusto dos Anjos”.