Por Chico Viana                  

                                                 O humor do artista cearense que refletiu a alma do povo brasileiro

         O Brasil reconhecia em Chico Anysio um artista múltiplo, que tinha no riso o denominador comum. Como ator humorísritico, foi absoluto. Ninguém o igualava na capacidade de criar tipos, cada qual com voz, fala, fisionomia e trejeitos próprios. Já se disse que ele não representava — “era” cada um dos personagens que criou.

        Além de atuar, escrevia para o teatro e a televisão, onde chegou a ter um programa diário por vários anos. Seus textos apareceram também em livros de crônicas e de pequenas narrativas às vezes centradas em seus personagens — como o Pantaleão de “É mentira, Terta?”. Em muitos dos “causos” que conta, num estilo espontâneo e oral, revela-se o modo de ser do homem nordestino. Seus textos refletem o contato com pessoas do povo, algumas delas tão curiosas a ponto de lhe servirem de referência para a criação dos tipos que imortalizou na TV.

         Uma das marcas do seu humor é a preocupação social, que transparece na criação de personagens como o professor Raimundo ou Justo Veríssimo. Na figura do velho mestre, o humorista criticava a situação econômica do magistério num país em que a educação raramente é prioridade dos governos. Ao protestar contra os parcos contracheques dessa categoria, tornou famoso o bordão: “E o salário, ó.” Já a sinceridade do político ladino constitui o avesso da hipocrisia com que grande parte dos nossos homens públicos mascara o desprezo que sente pelo povo.

          A criação de personagens como esses reforça a concepção que
Chico Anyisio tinha do humor; para além de divertir, o riso devia fazer pensar, revelando as deformações do indivíduo e as injustiças sociais. Ao humorista cabe expor o que há de errado na sociedade, para que outros procedam às transformações necessárias. Ele levava o humor a sério, considerava-o instrumento de denúncia. Deixou isso bem claro quando afirmou em uma de suas entrevistas: “Eu não tenho possibilidade de consertar nada, mas tenho a obrigação de denunciar tudo”.

            Chico Anysio não teria sido o humorista que foi se não associasse a preocupação social à consciência linguística. O humor, afinal de contas, está nas palavras. O que há de risível em pessoas, fatos, situações deriva sobretudo da forma de os representar. Para torná-los engraçados é preciso dominar uma retórica em cujo repertório se incluem figuras de linguagem, jogos vocabulares, frases de efeito, aproximação de elementos contrastantes. Chico dominava bem esses recursos, utilizando-os por vezes à exaustão conforme se poderá ver no texto abaixo.  

       No retrato até então inédito que faz de si, publicado em “O Globo” por ocasião da sua morte, o artista alia o humor ao lirismo (ver texto completo em http://oglobo.globo.com/cultura/um-autorretrato-inedito-de-chico-anysio-4428439#ixzz1qjayyKYr ). O mergulho no passado é uma das marcas da “escrita do eu”, que busca recompor vivências perdidas no tempo. Mesmo num escrito tão pessoal, manifesta-se a dimensão coletiva. O autor amplifica as referências subjetivas num “nós” que engloba meninos pobres como ele, e com essa visão solidária afirma sua brasilidade.

                                                                                        Texto 

                                                                                     O menino

                                                                                                                                                    Chico Anysio

Vou fazer um apelo. É o caso de um menino desaparecido.

Ele tem 11 anos, mas parece menos; pesa 30 quilos, mas parece menos; é brasileiro, mas parece menos.

É um menino normal, ou seja: subnutrido, desses milhares de meninos que não pediram pra nascer; ao contrário: nasceram pra pedir.

Calado demais pra sua idade, sofrido demais pra sua idade, com idade demais pra sua idade. É, como a maioria, um desses meninos de 11 anos que ainda não tiveram infância.

Parece ser menor carente, mas, se é, não sabe disso. Nunca esteve na Febem, portanto, não teve tempo de aprender a ser criança-problema. Anda descalço por amor à bola. (…)

Do amor não correspondido pela professora, descobriu que viver dói. Viveu cada verso de "Romeu e Julieta", sem nunca ter lido a história.

Foi Dom Quixote sem precisar de Cervantes e sabe, por intuição, que o mundo pode ser um inferno ou uma badalação, dependendo se ele é visto pelo Nelson Rodrigues ou pelo Gilberto Braga. (…).

Tímido até a ousadia, seus silêncios gritavam nos cantos da casa e seus prantos eram goteiras no telhado de sua alma.

Trajava, na ocasião em que desapareceu, uns olhos pretos muito assustados e eu não digo isso pra ser original: é que a primeira coisa que chama a atenção no menino são os grandes olhos, desproporcionais ao tamanho do rosto. (…)

Foi visto pela última vez com uma pipa na mão, mas é de todo improvável que a pipa o tenha empinado. Se bem que, sonhador do jeito que ele é, não duvido nada.

Sequestrado, não foi, porque é um menino que nasceu sem resgate.

Como vocês veem, é um menino comum, desses que desaparecem às dezenas todas os dias.

Mas se alguém souber de alguma notícia, me procure, por favor, porque… ou eu encontro de novo esse menino que um dia eu fui, ou eu não sei o que vai ser de mim.

 

Um dos recursos explorados pelo autor é a repetição de componentes finais da frase (epístrofe). Esse procedimento, comum na prosa e na poesia, permite a simétrica recorrência de palavras, sintagmas ou orações. Nas duas passagens marcadas, o humor decorre da quebra do paralelismo semântico no terceiro segmento, que é incongruente em relação aos demais por referir uma grandeza inquantificável; não se pode, do ponto de vista lógico, parecer “menos” brasileiro ou ter idade “demais” para a idade.

Ao considerar a subnutrição como normalidade, o autor alude às crianças que, como ele, têm uma infância difícil devido à condição social. O jogo presente na repetição invertida dos termos (antimetábole) reforça o tom de protesto, pois a insatisfação com a vida (não pedir para nascer) decorre da miséria a que se foi relegado (nascer para pedir).   

Irônica associação entre pobreza e anseio de liberdade. O amor à bola remete ao futebol, um dos principais instrumentos de ascensão social para grande parte das crianças pobres do Brasil. É sintomático que essa passagem apareça pouco depois da referência à Febem.  

Humor e lirismo se alternam para compor o retrato do menino que o adulto busca reencontrar. Alguns de seus traços — como timidez, introversão, sentimentalismo — reforçam-se por meio do paradoxo, da hipérbole e da metáfora. A duplicação desta última figura (goteira/telhado) chega ao rebuscamento num período já tão retoricamente inflado. 

O texto se estrutura como um “anúncio de desaparecido”. É comum nesse tipo de gênero a referencia à indumentária que a pessoa usava na última vez em que foi vista. A informação de que o menino “trajava uns olhos muito assustados” não constitui um sinal objetivo, mas se coaduna com o tipo de busca empreendido pelo autor. O menino não se perdeu no espaço, mas no tempo, ou seja, em si mesmo. Daí a perplexidade do olhar.

A desnecessária informação de que “é improvável que a pipa o tenha empinado” evoca, por contraste, a magreza do menino. A essa característica física sucede outra, psicológica, promovida pela metonímia associada ao brinquedo; seguir a pipa é seguir o sonho. A aliteração do fonema /p/ reforça a dimensão lúdica da frase.

(Publicado na seção Obra Aberta da revista Língua Portugesa n. 79)