VESTIBULAR REDAÇÕES DE ALUNOS
Curiosidade mórbida
30/01/2009
 

O papel da mídia é informar. Masum limite entre informar sobre uma situação delicada e explorá-la para aumentar a audiência. Essa divisão, que por vezes é tênue, foi visivelmente ultrapassada durante a cobertura do seqüestro de Santo André. A imprensa supervalorizou o acontecimento, apelando para a repetição excessiva de cenas e teorias, e tornou inviável a negociação com o seqüestrador.

 

O caso logo ganhou destaque nas programações. Câmeras disputavam os melhores ângulos para observar a janela do apartamento onde Lindemberg mantinha reféns a ex-namorada Eloá e a amiga dela, Nayara. Os jornalistas vasculhavam o passado dos adolescentes envolvidos e espiavam o trabalho da polícia à procura de novidades. O prédio ficou cercado pelos curiosos, que assistiam aos fatos como a uma novela. Apareceram inúmeros especialistas para conjeturar, criticar e analisar tudo: cenário, polícia, seqüestrador, vítimas. Ninguém soube avaliar as influências dessa atitude no comportamento do jovem, que logo foi transformado em protagonista da tragédia.

 

Lindemberg errou ao manter as garotas em cárcere privado e atirar contra elas. O seu ato confirmou uma mentalidade que infelizmente ainda sobrevive – a que associa o ser amado a uma propriedade. Segundo essa visão, seria justo tirar a vida do amado porque este rejeita seu “dono”, ou não lhe serve.  

 

O que mais impressionou no episódio, contudo, foi a falta de cuidado dos meios de comunicação com a forma pela qual transmitiram os acontecimentos. A exploração dos sentimentos para envolver aqueles a quem fornecem seus serviços revelou o desrespeito às vítimas e aos familiares delas. Esse sensacionalismo, nos últimos tempos, tem sido comum. Nos casos da menina Isabella Nardoni, do menino João Hélio e do casal Von Richthofen, por exemplo, a mídia aproveitou a comoção generalizada para aumentar seu ibope e valorizar seu horário comercial.

 

A tragédia de Santo André mostrou como está fácil o acesso a armas e como a polícia está despreparada para agir nos casos de crime passional. Além disso, ao evidenciar a falta de respeito aos sentimentos alheios, revelou a perda de valores éticos por parte tanto da imprensa, que faz sensacionalismo, quanto dos espectadores, que dão audiência e incentivam a continuidade desse comportamento.

 

                                                    Priscylla Lins Filgueiras (turma extensivanoite)

 

 

 

 
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