Pais e mães que procuram meu curso para seus filhos costumam fazer uma ressalva: “Queremos um curso de redação, não de gramática.” Geralmente acrescentam a essas palavras a informação de que os filhos não leem, ou leem pouco, e por isso têm dificuldade de escrever.  O acréscimo é pertinente, demonstra bom senso. Quem não lê não escreve. O que não se entende é a restrição à abordagem gramatical. Como se fosse possível produzir um texto sem o conhecimento das normas que disciplinam o uso da língua.

      Por que essa rejeição, se grande parte dos problemas que aparecem na escrita é de natureza gramatical? O que os pais na verdade contestam não é a gramática, mas a forma como ela é ensinada na escola. Contestam a gramatiquice, que se respalda na decoreba em vez de enfatizar o estudo dos mecanismos que regulam a prática da linguagem. Sem a compreensão desses mecanismos, é impossível escrever. Como redigir bem sem atentar para a concordância, a regência, a sintaxe dos modos e tempos verbais, a ordem adequada dos termos na frase, enfim, sem conhecer os meios que levam a um texto articulado e coerente?

      Vale a pena quanto a isso observar os escritores. Eles aprendem a gramática intuitivamente; graças à leitura e ao exercício da escrita, vêm a dominar os recursos que asseguram a correção e o rigor. Como diz Francine Prose, “dominar a lógica da gramática contribui – de uma maneira misteriosa que novamente evoca algum processo de osmose – para a lógica do pensamento” (“Para ler como um escritor”, p. 53). Nossos alunos não são escritores, mas certamente não será por meio de um aprendizado superficial, confundido com a aquisição de uma terminologia, que chegarão a escrever bem.

      A verdade é que há dois tipos de ensino gramatical. O primeiro concebe a gramática por si mesma e usa a língua como um meio para ilustrar a norma. É um modelo canhestro e parasitário, pois tende a converter o aluno em mero recitador das regras. Com isso, imobiliza o pensamento e entrava a capacidade de produção textual. Ninguém se torna redator simplesmente por saber conjugar verbos ou conhecer os termos da oração.

      O segundo tipo inverte o foco.  Reconhece que a gramática é meio, e não fim. Em vez de ressaltar as regras, e procurar ilustrá-las em frases descontextualizadas, desperta a percepção delas no uso da língua. É uma gramática para o texto, que integra outros domínios além do normativo. Entre eles, o semântico e o estrutural. Não há boa redação sem um vocabulário adequado e uma progressão articulada das ideias. Tampouco se escreve bem sem um repertório de informações que permita construir argumentos sólidos.

      Esses requisitos estão muito além do âmbito gramatical, é certo, mas não o dispensam. Desconhecer a gramática é como pretender que um corpo se mantenha de pé sem a espinha dorsal. Limitar-se a ela, contudo, é preservar-lhe apenas o esqueleto. O texto, como todo organismo, necessita de ossos e também de músculos, pele, nervos, tendões. É da articulação desses elementos que ele obtém a eficiência e a sedução com que envolve o leitor.