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Andam fazendo concursos para saber qual a melhor imagem da Copa. Por “melhor imagem” entenda-se a mais representativa, levando em conta o que o Mundial teve de bom e de ruim. Eu me divido entre o rosto em prantos do norte-coreano no jogo contra o Brasil, quando a orquestra tocou o hino do país dele; o pisão de Felipe Melo em Hobbes, na partida em que a Holanda nos pisou; e o beijo de Casillas na namorada jornalista -- uma cena clássica de “final feliz”.
É difícil escolher, mesmo porque a jabulani nos tenta com suas curvas (curvas, desde o Éden, são um terrível instrumento de tentação), e o polvo com os seus tentáculos. A jabulani foi o pesadelo dos goleiros e um desafio para quem gostava de chutões; pouco a pouco ela foi adestrando os pés dos jogadores e, ao mesmo tempo, dando aos atletas uma lição: melhor a sutileza do que a força. Quem, pela moderação e o cálculo, compreendeu o percurso dessa caprichosa esfera pôde colher bons e decisivos resultados.
O polvo me parece o grande enigma desta Copa. Ainda acho que houve ali um truque óptico e que os acertos do bicho merecem uma investigação. Caso se confirme a lisura dos seus palpites, haverá um enorme interesse nesse tipo de crustáceo por parte de videntes, astrólogos, quiromantes e institutos de pesquisa. Por que insistir em enfadonhas sondagens para conhecer a preferência do eleitorado? Basta consultar o polvo. Ele vai ser o novo oráculo, e com a vantagem de não errar para mais nem para menos em dois pontos percentuais.
Imagino o uso que os marqueteiros do presidente vão fazer disso. No imbróglio marinho em que podem se transformar as eleições, eles deverão explorar a ligação entre polvo e lula -- muito maior do que entre polvo e serra. Se a lula está mais perto do polvo na escala zoológica, o provável é que este beneficie o parente (desde que seja, claro, um polvo nacional) e com isso induza o eleitorado.
Ao contrário de nós, brasileiros, o polvo alemão adivinhou pra valer, pois não contaminava seus vaticínios com argumentos emocionais. Nós queríamos tanto que o Brasil ganhasse, que ainda hoje há quem não aceite o triunfo da Holanda. Os defensores de uma “teoria do complô” dizem que entregamos o jogo, nos deixamos vencer. Sendo a próxima Copa no Brasil, não faria sentido conquistar o hexa agora e arrefecer a expectativa de uma vitória em casa.
Há nesse raciocínio muita presunção. Além de não aceitar a superioridade dos laranjas, que nos derrotaram com um melhor futebol, parecemos convictos de que em 2014 seremos campeões. Isso ninguém garante. Além do mais, por que não poderíamos ter conquistado o hexa em 2010 e, daqui a quatro anos, alcançar o heptacampeonato?
Quanto à melhor imagem da Copa, fico mesmo com a do coreano banhado em lágrimas. Pode-se dizer que dos seus olhos chovia patriotismo, o que é um bom contraste à leviandade maldosa de Felipe Melo. Esse desertou do campo quando a nação mais precisava dele. |