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Desde os meus tempos de peladeiro, na infância, ouço dizer que o futebol é um esporte sem lógica (é tão ilógico o futebol, que até eu conseguia jogá-lo). Esse ilogismo não significa que nele não existam cálculo e racionalidade, mas sim que o percentual de acaso prevalece de longe sobre esses predicados, digamos, cerebrais.
Todo esporte tem sua cota de imprevisto, mas no futebol ela parece interferir em grau extremo no resultado do jogo. Um time pode se tornar campeão do mundo devido a uma bola que sobra, casualmente, de uma rebatida. Ou a um leve desvio na grama que engana o goleiro, esse patético personagem do jogo.
O que é o “frango”, senão uma manobra do destino que associa em medidas iguais tragédia e comédia? Ele é a ironia máxima de deixar escapar aquilo que praticamente tínhamos nas mãos. A vida está cheia de ocorrências desse tipo; somos todos “frangueiros” de viagens, empregos, amores, que deixamos escapar ou porque não os agarramos com firmeza, ou porque de súbito eles tomam outra direção. O jeito é disfarçar o desalento e, torcendo por uma melhor sorte, buscar a bola nos fundos da rede e continuar a partida.
A atual Copa vem demonstrando a influência do acaso em dois elementos dos quais se esperam objetividade e isenção. O primeiro é a bola; o segundo, o juiz. A bola é em princípio neutra; devido ao seu peso, textura, esfericidade, responde proporcionalmente ao impacto dos pés que a golpeiam. Pelo que se tem ouvido, não é isso que acontece com a jabulani, que parece escolher seus próprios caminhos. Ou sobe demais, ou se desvia da rota pretendida, e com isso tem surpreendido tanto atacantes quanto defensores.
Mas a jabulani não é uma pessoa, é um objeto, e não há como criticá-la por uma engenharia de que ela não teve culpa. Os que a desenharam que se expliquem. Pior tem sido a atuação de alguns juízes. Ora anulam gols legítimos, ora validam gols de jogadores em impedimento, como se o fato em si fosse irrelevante diante da visão que têm dele. Esses erros vêm interferindo no resultado dos jogos, por isso já não basta a um time ser superior a outro; é preciso também “pedir sorte” para que o juiz não o prejudique. Quando isso ocorre, descaracteriza-se o esporte como uma competição na qual ganha o melhor.
Como todo juiz voluntária ou involuntariamente é “ladrão”, está na hora de pensar em alternativas para inibir suas falhas. Uma delas seria poder consultar as imagens televisivas durante os jogos.
Antes da TV juízes e plateia tinham praticamente a mesma visão do campo, e se notavam menos os erros da arbitragem. Hoje o público e os críticos sabem mais do que o juiz, veem o que ele não vê, julgam-no o tempo todo. É insensato privar aqueles a quem cabe avaliar o que é lícito ou ilícito no jogo de meios para ver bem as partidas. Sobretudo não tem sentido, num contexto de altas possibilidades tecnológicas, dar tanta margem à influência do acaso. |