ESCRITOS FALOU E DISSE
O ofício de escrever
23/03/2010
 

        “Oficina de escritores”, de Stephen Kock, é uma dessas bíblias que todo aspirante a escritor deve conhecer. Nele o autor condensa uma experiência de décadas ensinando a escrita. Ele conhece bem as expectativas, as fantasias e os medos de quem lida com as palavras, mesmo porque na qualidade de autor ficcional sente o problema “por dentro”. Uma coisa é apenas ensinar; outra é também “fazer” e tirar da experiência lições que se podem passar a outras pessoas.

         Escritores são muito sensíveis, e por vezes inseguros, por isso precisam de quem os encoraje e lhes alimente a confiança. Koch faz isso muito bem. Começa por desmitificar o ofício de escrever; para ser escritor precisa-se, obviamente, de algum dom no uso das palavras, mas isso não servirá de nada se não se tiver gosto pela leitura e, sobretudo, muita disposição para praticar. Segundo ele, a escrita não nasce da inspiração -- pelo contrário: é começando a escrever que o indivíduo se inspira.

Os escritores profissionais são a prova disso. Escrevem porque precisam dentro de certo prazo entregar os originais aos editores; se fossem aguardar o “sopro”, o “toque”, a “luz” que lhes traria boas ideias, permaneceriam inertes diante da página em branco. Então a alternativa é começar, e esperar que do contágio verbal vá brotando a “febre” que lhes descortina novos sentidos. O inesperado surge dessa fricção, que se acompanha de algum saber e muita persistência.

A boa ideia pode aparecer, e já trazer o texto pronto, mas são raras as ocasiões em que isso ocorre. Comumente ele precisa ser construído pela memória, pelo pensamento e pela exploração cuidadosa das palavras. Felizmente elas não vêm sozinhas, carregam consigo não apenas outros signos como também pensamentos e conceitos que “puxam” novas palavras. A escrita é a ciência de articular tudo isso, é um pensamento organizado segundo esquemas linguísticos que se multiplicam e se transformam.

O escritor precisa trabalhar, com rigor e ciência da língua, para merecer “a frase que surge do nada no momento certo”. Isso não constitui uma dádiva, mas um prêmio ao esforço. E para se ter outros momentos assim, é preciso não parar. Eis como Kock justifica isso: “Se é a escrita que gera a inspiração -- e não o contrário --, a produção abundante leva à abundância de inspiração”.

O básico no trabalho do escritor é sua relação com a linguagem. Ele não sabe até que ponto usa a língua ou é usado por ela.  O estilo, expressão desse combate, define quem ganhou.  O estilo é a marca, mas não se deve forçá-lo. Se ninguém consegue imitar a maneira de escrever de outra pessoa, muito menos consegue disfarçar a sua.  Como diz nosso autor, “até a prosa mais impessoal se torna singularmente própria do escritor, e este é um dos mistérios da escrita”. Um mistério que se reduz quando pensamos que na escrita refletimos profundamente o que somos.

 

 

 

 
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