ESCRITOS FALOU E DISSE
Mais gás no debate
14/03/2010
 

       Tudo agora nos faz pensar no aquecimento global. No momento em que escrevo, por exemplo, faz um calor de derreter geleiras (caso estranhem a imagem, esclareço que é preciso adequar o estilo ao politicamente correto). A canícula sempre nos torturou nesta época do ano, mas hoje temos uma razão para explicá-la. Esse calor causticante deve ser motivado pelo tal efeito estufa.

        E nos anos anteriores, em que o mormaço era praticamente o mesmo e não se falava em aquecimento do planeta? O que fazia o tempo esquentar? É preciso dar uma boa explicação para isso, do contrário vamos terminar achando que se pinta o aumento da temperatura da Terra com um catastrofismo desnecessário.

Paranoia ou não, acabou de haver em Copenhague um encontro para discutir o tema. Ali, sim, o termômetro subiu. As discussões foram acaloradas e não se chegou a um consenso, entre outros motivos porque havia entre os participantes quem não vê razão para se temer tanto a febre do planeta. Um deles é Bjorn Lomborg, que há alguns meses deu uma entrevista a “Veja” dizendo que esse foco excessivo no clima está nos alheando do que é prioritário.

Lomborg afirma, por exemplo, que “segundo a Organização Mundial de Saúde, 150 mil pessoas morrem por ano por causa das mudanças do clima (...).  Enquanto isso, 15 milhões de pessoas morrem de doenças infecciosas facilmente curáveis”. Em seguida, ele faz um alerta grave: “... se não fizermos nada quanto à crise da aids na África, nós veremos o colapso do continente. Seria um paraíso para o terrorismo, um lugar onde poderíamos ter armas nucleares e biológicas.”

 E agora? Dizem que o dinamarquês representa os interesses das grandes corporações industriais, que reduziriam seu crescimento se tivessem de limitar a emissão de poluentes na atmosfera. Mas o apelo dele ao social me parece convincente, e não apenas no âmbito humanitário. Também no plano econômico seria mais lucrativo investir na África do que no Protocolo de Kyoto. “Se você gastar US$ 1 com o Protocolo”, argumenta Lomborg, “o benefício será de 30 centavos (...). Compare com o que se pode fazer contra a disseminação e pela prevenção do vírus da aids na África subsaariana, em que cada dólar gera outros 40 em benefícios.”

        Os ecologistas não se sensibilizam com esse tipo de argumento e seguem impávidos na sua cruzada contra tudo que possa aumentar a temperatura da Terra. Por enquanto o grande vilão é o dióxido de carbono emitido pelas chaminés das indústrias e maior responsável pelo efeito estufa; mas no futuro as restrições certamente vão abranger outras fontes e outros poluentes.

        Penso inclusive nas fontes e nos poluentes humanos, já que somos emissores de gases pestilentos que resultam dos nossos processos fisiológicos. Por meio de flatos e eructações degradamos aos poucos o ar, e não será impossível que no futuro o cerco se volte contra nós. Seremos, todos, tratados como hoje se tratam os fumantes, e deveremos procurar um lugar apropriado para satisfazer nossas necessidades, digamos, emissivas.

        Enquanto esse dia não chega, continuemos comendo em paz nossa batata-doce e nosso repolho -- que certamente serão banidos, junto com o ovo, do cardápio dos novos tempos.

 

 

 

 
 Últimos escritos
30/08/2010
Duplo sentido
16/08/2010
Hipérbole e eufemismo
06/08/2010
"Para ler como um escritor"
31/07/2010
Uma questão de clareza
26/07/2010
"Eclipse"
18/07/2010
A imagem da Copa
06/07/2010
Futebol e acaso
.
 Mala direta
Cadastre seu e-mail e receba as novidades do portal e do Curso Chico Viana
 
.
 Caixa Postal
Conheça a opinião de alunos e leitores sobre o trabalho do professor Chico Viana.
Total de visitantes: 9847
Visitas hoje: 57
 
© www.chicoviana.com • 2007 - 2009
Todos os direitos reservados ao autor.
desenvolvimento e hospedagem
maquinariacultural.com.br