NOVO! Enem 2017 – Análise de uma redação nota 1000

                                                                                             Redação 

A formação educacional de surdos representa um desafio para uma sociedade alienada e segregacionista como a brasileira. O desconhecimento da língua brasileira de sinais – LIBRAS – e a visão inferiorizante que se tem dos surdos podem acabar por excluí-los de processos educacionais e culturais e mantê-los marginalizados em relação ao mundo atual. Portanto, esses desafios devem ser superados de imediato para que uma sociedade integrada seja alcançada.

Em primeiro lugar, a pouca abrangência da língua de sinais entre os mais diversos setores da sociedade faz dela um ambiente inóspito para os deficientes auditivos. Pesquisas corroboradas por universidades brasileiras e estrangeiras, como a Unicamp e a Universidade de Harvard, atentam para a importância da linguagem como principal porta  para a convivência social, permitindo uma multiplicidade de interações interpessoais, como as de educação, cultura, trabalho e lazer. Assim, quando a sociedade se fecha à comunicação por sinais, justificada pela ignorância, aqueles que dependem dessa linguagem têm dificuldades de obter educação de qualidade e ficam, muitas vezes, à margem das demais interações sociais.

Além disso, a maioria das escolas brasileiras não incluem os surdos, assim como os demais portadores de necessidades especiais, em seus programas, estimulando a diferença e o preconceito. Por mais que a legislação brasileira garanta o ensino inclusivo, a maioria das escolas brasileiras não possuem estrutura para atender aos deficientes auditivos, principalmente por conta da falta de profissionais qualificados. A pouca inclusão dos jovens deficientes e não-deficientes valoriza a diferença entre eles, gerando discriminação e uma sociedade dividida. O renomado geógrafo Milton Santos dizia que uma sociedade alienada é aquela que enxerga o que separa, mas não o que une os seus membros, algo que se evidencia na exclusão de surdos em todos os níveis de ensino.

Dessarte, visando a uma sociedade mais justa, é mister superar os desafios da educação de deficientes auditivos. Para que o surdo se integre aos diversos meios sociais, como o educacional, o MEC deve fazer uma reforma curricular, que contemple o ensino de LIBRAS como obrigatório em todas as escolas, através de consultas populares na internet para determinação da carga horária. Ademais, com o intuito de tornar as escolas inclusivas, o MEC e o Ministério do Trabalho devem prover as escolas de profissionais capacitados, que possam lidar com alunos surdos através de programas de capacitação profissional oferecidos pelo SESI e o SENAC. Dessa forma, o ensino tornará a sociedade brasileira mais unida. (MCDC)

 

                                                                                   Comentários

1) O candidato inicia o primeiro parágrafo com uma generalização, considerando a sociedade, como um todo, alienada e segregacionista (devem-se evitar esses juízos genéricos e superficiais). A despeito disso, ele se sai bem na Introdução. Sua tese é a de que é preciso superar os desafios que impedem a integração dos surdos, cuja exclusão decorre, basicamente, do desconhecimento da língua de sinais e da visão inferiorizante que a sociedade tem deles.

 

2) Apresentada a tese, ou ponto de vista, o estudante inicia a partir do segundo parágrafo a argumentação. Utiliza com propriedade o operador argumentativo “Em primeiro lugar”, que antecipa uma sequência complementada, no terceiro parágrafo, por “Além disso”. O uso desses operadores concorre para estabelecer a progressão textual.  

 

3) O candidato utiliza no segundo parágrafo argumentos causais e de autoridade. Ele justifica a sua tese com a afirmação de que a pouca a abrangência da língua de sinais torna a sociedade inóspita (hostil) para os deficientes auditivos. Respalda essa ideia na autoridade de duas instituições de peso — a Unicamp e a Universidade de Harvard –, que por meio de pesquisas confirmam a importância da linguagem como o principal meio para a convivência e as interações que essa convivência comporta em vários âmbitos (educação, trabalho, cultura, lazer). O uso do operador “Assim”, de caráter dedutivo, concorre para a eficiência lógica do raciocínio e dá ao parágrafo o aspecto de um texto autônomo (começo, meio e fim).

 

4) A ressalva que se deve fazer ao segundo parágrafo diz respeito à precisão vocabular. As pesquisas não são “corroboradas”, mas “empreendidas”, “levadas a efeito”; e não “atentam”, mas “demonstram”, “comprovam” a importância da linguagem como principal meio para a convivência social.

 

5) No terceiro parágrafo, ainda argumentativo, o tópico é “as escolas brasileiras”, que não concorrem para a inclusão dos surdos (a despeito do que estabelece a legislação) por não possuírem estrutura nem profissionais qualificados. O aluno utiliza um novo argumento de autoridade, representado por uma citação indireta do geógrafo Milton Santos, para o qual uma das marcas de alienação social é a dificuldade de atentar para o que une os seus membros; segundo o candidato, o Brasil se enquadra nessa situação quanto ao tratamento dado aos deficientes auditivos.

 

6) Novamente a ressalva que se deve fazer dia respeito ao rigor vocabular. Na versão do aluno, “A pouca inclusão dos jovens deficientes e não-deficientes valoriza a diferença entre eles, gerando discriminação e uma sociedade dividida.” Esse período ganha em exatidão caso se substitua inclusão por “integração” e “valoriza” por acentua.

 

7) Na Conclusão, o candidato retoma a ideia expressa na tese (sobre a necessidade de superar os desafios para a integração social dos surdos) e parte para a proposta de intervenção. Ela está articulada com o que foi argumentado, ou seja, atende à exigência de “manter um vínculo direto com a tese desenvolvida no texto e demonstrar coerência com os argumentos utilizados” (Guia do Participante, p. 24), e apresenta os componentes necessários (agente, ação, meio, efeito). O aluno desdobra-a em dois níveis — o pedagógico e o profissional.

 

8) No nível pedagógico, ele cobra do MEC (agente) uma reforma curricular (ação) que torne o ensino de LIBRAS obrigatório nas escolas a fim de, com isso, integrar os surdos aos diversos meios sociais (efeito). No nível profissional, o candidato associa a ação do MEC à do Ministério do Trabalho (agentes), que devem prover as escolas de profissionais capacitados (ação), que possam lidar com alunos surdos através de programas de capacitação profissional (meio) com o intuito de torná-las inclusivas (efeito).

        

O que determina a nota máxima é basicamente a capacidade de compreender o tema, lendo bem os textos motivadores; ter uma visão crítica e pessoal do problema discutido; argumentar com lógica e clareza; apresentar propostas viáveis para, se não resolvê-lo, conduzir a uma possível resolução. O candidato atendeu a esses requisitos e fez jus à nota que obteve.

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