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O ponto mais polêmico da reforma ortográfica é, sem dúvida, o uso do hífen. Muitas das propostas apresentadas no recente Formulário Ortográfico são incoerentes. Não se entende, por exemplo, a retirada do traço-de-união em palavras como “tomara que caia”, “bumba meu boi”, “faz de contas”, “Maria vai com as outras”.
O hífen distinguia, nessas expressões com verbo, os enunciados oracionais daqueles em que o conjunto tinha um sentido específico. Era um identificador ao mesmo tempo morfológico e semântico.
Uma coisa é dizer que “Maria vai com as outras”, considerando Maria sujeito de um predicado verbal. Outra é afirmar que “Fulana é maria vai com as outras”, ou seja, não tem opinião própria.
“Tomara que caia” constitui um período composto e tem valor optativo. É o que um homem pode exclamar diante de uma peça do vestuário feminino que parece em via de cair, desnudando o que estava precariamente coberto. A expressão tem outro sentido quando se diz, por exemplo, que a moça está usando um “tomara que caia”.
Enfim, está lançada a confusão. A comissão que editou o Formulário apostou no contexto, mas será ele suficiente para desfazer as ambiguidades que poderão surgir? Nada impedirá alguém de entender e pontuar o primeiro dos exemplos acima deste modo: “Fulana é Maria. Vai com as outras”, identificando pelo comportamento comum as duas figuras femininas.
E no seguinte diálogo, é possível que um revisor distraído troque a primeira versão pela segunda – ambas lógicas e pertinentes:
(1) - A moça veio de bustiê?
- Ela está usando um tomara que caia.
(2) - A moça veio de bustiê?
- Ela está usando um. Tomara que caia.
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