ESCRITOS CRÔNICAS
Poesia e olhar
13/12/2008
 
            Poetas bissextos produzem ao sabor das circunstâncias e geralmente escrevem com o propósito de se confessar.            Francisco Gil Messias é um bissexto assumido. Ele enfatiza essa condição no subtítulo do seu Olhares, lançado recentemente pela Idéia. No caso de Gil, dizer-se bissexto parece mais um gesto de humildade. Uma prudente ressalva feita por alguém que antepõe a autocrítica ao possível rigor com que venham a julgá-lo. A leitura do livro demonstra que esse receio é infundado.   

            Olhares é um título apropriado a quem se pretende sobretudo um observador. Ver, indagar, perscrutar é o ofício que ele por excelência pratica, buscando respostas para compreender a si e ao mundo. Nesse clima de inquietação pulsante, com o qual é impossível não se identificar, recorta-se a figura do homem com seus medos, sonhos, perplexidades.

            O maior enigma é o ser do poeta, que por entre medos e culpas procura a sua identidade. A indagação existencial revela-se com especial dramatismo na primeira parte do livro, intitulada “Um olhar para dentro”. Nela, um dos temas recorrentes é o conflito entre unidade e dispersão. No poema “Psicanálise”, por exemplo, o eu lírico se pergunta de início : “Quantos eus se escondem em meu peito único?”. E reconhece, nos versos finais: “Síntese mal feita de contrários,/  mosaico medonho de opostos,/ sou tantos e sou nenhum”.

            Uma possibilidade de desfazer essa antítese é ceder ao “doce apelo” dos ambientes conventuais: “O silêncio dos conventos/ e a solidão dos claustros/ caminham comigo como um chamado/ que vem de longe, muito longe...” – confessa ele em “Talvez”. Mas será difícil atender ao apelo místico, pois a ele se contrapõe o impulso indagador, reflexivo, de alguém que vive o seu tempo. Alguém que se apresenta a Deus “talvez sem muita humildade,/ trazendo nas mãos apenas/ a minha humanidade” (Apresentando-me a Deus).

            Gil Messias cria premido pelas suas inquietações e pelas suas leituras. Importante faceta do livro é o diálogo que entretém com seus poetas de eleição, especialmente Drummond, Bandeira e Fernando Pessoa. O primeiro  parece haver-lhe dado o molde para tratar os conflitos de família, que refletem as irrevogáveis cadeias do sangue. “O silêncio de meu pai”, por exemplo, ecoa a dura solidão do itabirano e se conclui num achado formal: a repetição, no primeiro e no último verso da terceira estrofe, do vocábulo “ensimesmado” para traduzir a identificação dolorida, especular, do eu poético com a figura paterna.

É no diálogo com Drummond, por sinal, que o autor de Olhares melhor expressa o seu conceito de poesia. Às considerações do mineiro, que enfatizam a dimensão lingüística do signo poético, Gil Messias contrapõe uma visão de poesia centrada nos conflitos da vida: “Mas o que são as palavras e suas mil faces secretas/ sem o sangue e sem o mel/ que dos dramas banais de nossas vidas/ escorrem despudoradamente sob o céu?” (Réplica ousada). Ele escreve de olho nesses dramas banais, que são no fundo os que melhor espelham a condição humana.

 

 

 

 
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