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ESCRITOS CRÔNICAS |
Lições da crise
21/10/2008 |
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Não entendo quase nada de Economia, mas isso não me deixa complexado. Os próprios economistas entendem muito pouco do seu objeto de trabalho. Eles são ótimos em artigos para jornais e entrevistas para a TV, onde nos iludem com termos pomposos e teses obscuras, mas não escapam de ser atropelados pelos eventos.
Prova disso é a crise financeira que atravessamos. Ela se originou nos Estados Unidos, centro do pensamento econômico. Lá surgiram as modernas escolas de Economia, cujos princípios encaminharam o mundo para a livre-iniciativa e a exaltação do mercado. Se escolhemos o capitalismo, foi por causa dos argumentos convincentes de pensadores sobretudo norte-americanos.
Como explicar, então, que nesse país surja uma crise originada pelo desrespeito a princípios elementares, como o de que não se deve dar empréstimo a quem não pode pagar? Qualquer dono de quitanda sabe que o excesso de dívidas, cedo ou tarde, leva o devedor à inadimplência; os contadores e economistas dos grandes bancos americanos desconheciam esta singela verdade!
Dizem que a causa da crise foi a “bolha” do mercado imobiliário norte-americano. Passaram a vender imóveis caríssimos a pessoas da classe média, cuja renda mensal era às vezes inferior às prestações. A explicação faz sentido, pois ilustra um fenômeno que hoje se observa em várias partes do mundo – inclusive em nossa João Pessoa: o aumento insensato e abusivo do preço dos imóveis. Muitos preferem deixar de vender, a negociá-los por quantias mais baixas.
Certamente fazem isso porque sabem que sempre haverá compradores, pois nossa classe média é igual à de todo o mundo e não resiste à tentação de morar em edifício “nobre”, de preferência com nome em inglês. Um desses “Palace”, “Place” ou “Center” não sei o quê, geralmente enfeitado com um “’s” do genitivo. Não é difícil que, no futuro, tenhamos por aqui uma “bolha” – mas será bolha de país pobre, cujo estouro não afogará em medo e incerteza o mundo.
Dizem que o melhor das crises é que elas nos fazem tirar lições. Dentro da minha modesta compreensão dos fatos, vou tratando de tirar as minhas. Uma delas é que hoje se especula mais no mercado imobiliário do que na bolsa de valores. Nele é que, pela ânsia desmedida de lucro, perdeu-se a sintonia entre custo e renda, trabalho e capital.
Outra lição é que a garantia do capitalismo não está nos bancos, como se apregoa para justificar os ganhos estratosféricos dessas instituições, mas nas reservas monetárias dos governos. Os banqueiros querem que o Estado seja pequeno e não se intrometa em seus negócios, mas é dele que se socorrem quando estão, como agora, prestes a entrar em colapso. Por imprevidência, má-fé, ou as duas coisas juntas. |
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