ESCRITOS CRÔNICAS
O dever de sorrir
01/04/2007
 

“Sorria! Você está sendo filmado.” É comum encontrar esse tipo de aviso nas filas das lotéricas, no saguão das agências bancárias ou nas paredes dos estabelecimentos comerciais. E não se trata de blefe: basta vasculhar o teto que a gente nota aquele olho inflexível nos esquadrinhando.

Não estranho tanto a câmera, afinal de contas vivemos tempos inseguros. A exclusão social é grande e, dos que entram numa loja ou num banco, quantos não estarão ali para assaltar, seqüestrar ou coisa semelhante? É natural que proprietários e banqueiros queiram proteger seu patrimônio.

O curioso são os dizeres. Por que essa intimação ao sorriso, enfatizada pelo ponto de exclamação? Pode-se alegar que o verbo no imperativo é um simples artifício retórico; o importante na placa é informar algum mal-intencionado de que aquele estabelecimento está sob vigilância eletrônica. Ele não deve, portanto, ousar nenhuma atitude que afronte a lei.

Ainda assim, ou por isso mesmo, o apelo a que sorriamos me parece intrigante. Devemos levá-lo a sério e sorrir, reeditando o gesto bobo com que usualmente posamos para as lentes. Ou devemos fazer uma careta e mandá-lo chatear outro?

O que incomoda nesse tipo de convocação é a ironia. No fundo, o sentido da mensagem é este: “Cuidado, não saia da linha. Mantenha-se sério em corpo e em espírito. Estamos vigiando seus movimentos e suas intenções!”.

A exortação ao sorriso é um disfarce para abrandar nossa resistência, um mecanismo subliminar que nos desperta reminiscências infantis. Quem em criança não posou risonho diante de uma câmera, na busca ingênua de perpetuar na foto aquele momento de alegria? Querem agora que revivamos isso numa fila de banco ou no balcão de uma loja, como se o sorriso fosse um decalque que colamos no rosto – e não o reflexo de um estado de alma. 

Essa hipótese é tão absurda que penso em outra interpretação: o apelo é mesmo a que sorriamos, mas não para olhar para a câmera. Devemos sorrir é do constrangimento de sermos filmados naquele local, sem prévia autorização, sem nenhum respeito por nossos tiques e rugas.

Nesse caso o anúncio teria um sentido filosófico e nos conclamaria à resignação: “Você está sendo filmado, mas que é que se há de fazer? Vivemos num mundo desigual, violento, e não dá para excluí-lo do rol dos suspeitos. Mas não se chateie, leve tudo isso numa boa. Sorria!”

Infelizmente, leitor, o sentido não é esse. Eles querem mesmo é nos ironizar.

 

 

 

 
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