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Há meses longe da família, não podia se manter ausente nas festas de fim de ano. Resolveu que lhe mandaria um cartão.
Depois de entrar em cerca de três papelarias, comprou um dos mais bonitos e caros. De um lado havia um coração; do outro, uma casinha com chaminé cercada por um vasto campo nevado. Frisos dourados em forma de folhas e flores envolviam a paisagem.
Chegou em casa, desdobrou o cartão na mesa e se preparou para o principal – escrever ali alguma coisa. Ouvira de alguém que a alma de um cartão é o oferecimento. Ele queria uma mensagem ao mesmo tempo simples e profunda, capaz de abrandar nos que amava a tristeza por tantos meses de ausência.
Caneta na mão, foi à janela e inspirou o ar noturno. Naquela hora não precisava de oxigênio, mas podia ser que a brisa o inspirasse – em outro sentido, é claro. Ensaiou a dedicatória: “Que a brancura desta paisagem traduza a pureza...”. Estacou, desgostoso. “Brancura”, “pureza”. Parecia propaganda de sabão em pó.
Passou a língua na ponta da caneta, como se umedecendo-a dela fizesse brotar uma frase feliz, e pensou em outro começo: “Que o bimbalhar dos sinos, nesta noite especial...” “Bimbalhar?” O termo lhe pareceu feio e, o que é pior, lembrou-lhe um antigo complexo que o fazia sentir-se diminuído em sua virilidade.
Não, nada de bimbalhadas. E nada de sinos. Falaria em como é importante o Natal para a preservação do sentimento de família, sem a qual a sociedade, “privada da sua célula-mãe, inexoravelmente entraria em colapso, pois...”. Espere aí! Cartão de Natal não era lugar para discursos. Se fosse falar difícil, onde ficaria a emoção?
Fez várias tentativas, e não acertava o tom. Às vezes achava o texto incolor, às vezes o sentia verboso e falso. Para não deixar o cartão em branco, acabou escrevendo: “Pai, mãe, Dudu e Maroca: tenham todos um Feliz Natal e um próspero ano novo”. Foi dormir estranhamente satisfeito.
Moral da história: quando a tradição fala por nós, o lugar-comum pode ser uma saída. |