ESCRITOS CRÔNICAS
Mentira e linguagem
01/04/2007
 

Aproximam-se as eleições e, com elas, a possibilidade de escolhermos os que vão nos dirigir e representar. Em tempos de mensaleiros e sanguessugas, a tarefa não vai ser fácil. Conheço muita gente que para escapar desse constrangimento decidiu não votar em ninguém. Outros vão ser rigorosos na avaliação do passado dos candidatos, observando-lhes a evolução patrimonial e as possíveis complicações com a Justiça.

Tudo isso é válido e define o eleitor consciente. Mas outro bom critério é avaliar-lhes a linguagem, ou seja, o discurso. Temos para isso a propaganda eleitoral gratuita, que obriga os postulantes a, bem ou mal, dizer a que vieram.

Alguns objetarão que todo político é mentiroso, e não se deve acreditar no que eles dizem. Em parte isso é verdade, mas a observação criteriosa do discurso permite que a gente reconheça, digamos, quem mente mais. Há mentiras generosas, mentiras pragmáticas, mentiras cínicas. Analisando direitinho a fala do mitômano (nome pomposo para designar quem mente), percebemos qual desses tipos ele comete. 

O pior mentiroso é o que fala o tempo todo em família, pátria, valores morais. A moralidade é um valor transcendente às circunstancias de campanha. Existe, independentemente de quem esteja no poder, para tornar possível a vida em sociedade. Invocá-la para conseguir um cargo público é demagogia. Revela tanto oportunismo, que chega a ser um recurso imoral.

Mas o melhor da propaganda eleitoral gratuita é fazer-nos reconhecer os analfabetos funcionais. Esses não conseguem mentir, pois não sabem sequer se expressar. A mentira, como nos ensinaram os sofistas, exige domínio de linguagem, imaginação retórica, habilidade em forjar argumentos. Como pode fazer isso quem mal consegue ler o monitor instalado por trás da câmera?

O triste de ver candidatos como esses é constatar o quanto ainda é precário o nosso sistema político. Candidata-se quem quer, tenha ou não qualificação para ocupar um cargo público. O único consolo é que esse pessoal, mal diz duas palavras, logo se desvenda. São menos perigosos do que os que sabem disfarçar com palavras suas nefastas intenções.

 

 

 

 
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