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O assassinato brutal do menino João Hélio faz com que entremos o Carnaval numa espécie de luto. É claro que ninguém vai deixar de brincar ou de assistir ao desfile das escolas de samba. Afinal de contas, vivemos no Brasil. Mas a imagem desse crime debilita o nosso ânimo folião, compromete a espontaneidade da nossa alegria.
Se os crimes urbanos tornaram-se tão corriqueiros que praticamente já não nos abalam, por que a morte desse menino provocou um clamor nacional? Primeiro, pela natureza da vítima – uma criança inocente e indefesa. Depois, pela forma cruel com que ela foi morta.
Matar alguém arrastando-o pelo calçamento faz lembrar os suplícios que os bárbaros infligiam a seus inimigos. Como naquele tempo não havia carro, as vítimas eram arrastadas por animais. Ao final da corrida restava delas uma posta de carne sangrenta, que se enterrava sem muito trabalho.
Quando vi os restos de João Hélio guardados num saco, não pensei noutra coisa. Imaginei que havíamos retrocedido ao tempo em que não havia ciência, capitalismo, globalização. Consideramos esses produtos do engenho humano como sinais de progresso, mas constatamos decepcionados que eles não modificaram em quase nada a nossa natureza.
De repente, no cruzamento ermo de uma metrópole, a “fera” emerge e reproduz o comportamento sanguinário que julgávamos sepultado em séculos de civilização. Uma das lições que se pode tirar disso é que a miséria é o caminho mais curto para se restaurar a barbárie. Se destinamos a poucos os frutos da civilização e do dinheiro, condenamos a parte deserdada ao impulso animalesco de sobreviver. A partir daí, nada de bom se pode esperar do ser humano.
Mas é Carnaval. Ele existe para esquecermos um pouco essas coisas. Embora tristes, vamos tentar aderir à folia. A partir de quarta-feira, voltaremos a enfrentar nossos fantasmas urbanos. |