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Guimarães Rosa escreveu que viver é perigoso. Poderíamos criar uma série de variantes para essa frase. Viver é trabalhoso, viver é incerto, viver é estupidificante. Quando o vento da tragédia nos bafeja, de forma direta ou indireta, esse último adjetivo é o que melhor caracteriza a vida.
Estupidificados. Foi assim que nos sentimos na última semana ante o desastre que vitimou os três adolescentes no Bessa. Uma das garotas mortas foi colega da minha filha mais velha no Colégio Pio XI. Cursava Fisioterapia, como as outras vítimas, e ia se formar daqui a alguns meses.
Tinha pouco mais de 20 anos e, como se diz nesses momentos, toda uma vida para viver. Então um acidente absurdo inviabiliza-lhe os planos, corta em quem mal começou a caminhar a possibilidade de qualquer caminho. E de repente não resta senão a lembrança da menina bonita e alegre, que igual a tantas da sua idade curtia rodeios e baladas.
Perplexos, pensamos na impiedade do destino. O que era projeto, futuro, sonho de casamento e filhos – esfumou-se em nada. Procuramos uma lógica por trás dos fatos, mas onde achá-la? A supressão de vidas que mal despontam parece mesmo não ter sentido. Talvez só seja possível encontrá-lo nos abismos da fé religiosa. Por meio dela será possível transformar acaso em providência, indiferença em compaixão. E com isso obter algum consolo.
Difícil é consolar os pais desses meninos. Difícil é aplacar a dor de Soraia, mãe de Aladyana, explicando-lhe que o que aconteceu tinha de acontecer. Ou que a filha, como dizem ocorrer aos muito bons, livrou-se mais cedo das dores deste mundo. Seriam palavras inúteis diante da imensa perda.
Quem viu seus espasmos de dor na capela do Parque das Acácias sabe que o mais digno é silenciar. Nada explica, nada justifica, nada esclarece aquele corpo inerte no caixão.
Abraçada a Aladyana, Soraia parecia chorar a própria morte. Mas nesse abraço último ela a teve como jamais a teria ao longo da vida. |