ESCRITOS CRÔNICAS
A pontuação
01/04/2007
 

A pontuação é uma característica da língua escrita. Não precisamos pontuar quando falamos, pois o discurso oral tem seus próprios meios de traduzir pausas, tons, acentos etc.

Já imaginaram falar acrescentando depois de palavras ou frases expressões como “vírgula”, “ponto”, “interrogação”, “exclamação”? Pode parecer esdrúxula uma pergunta dessa, mas é sempre com ela que começo minhas aulas sobre este assunto.

Muitos alunos têm dificuldade em perceber que “pontuam” quando falam. Esse alheamento entre som e escrita dificulta-lhes o uso adequado dos sinais. Pontua-se, na verdade, para traduzir no discurso escrito o ritmo da linguagem oral. É tudo uma questão de ouvido.

A pontuação vai além do simples uso de sinais específicos (vírgula, ponto-e-vírgula, ponto final).  Envolve a divisão dos vários segmentos do texto. O uso de períodos curtos ou longos, de fragmentos de frases, de orações coordenadas ou subordinadas determina a forma como o texto é dividido, ou seja, pontuado.

A pontuação tem mais a ver com a expressividade do que com a lógica, embora seja um requisito fundamental para o discurso ter sentido. A forma como pontuamos reflete a ênfase que queremos dar a determinados componentes textuais. É um dos recursos que utilizamos para captar o interesse do leitor.

Cada época tem o seu estilo de pontuar. No tempo do Romantismo a moda eram períodos longos, adornados por adjetivos e advérbios. Vejam esta frase de Alencar: “Dir‑se‑ia que, vassalo e tributário desse rei das águas, o pequeno rio, altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva‑se humildemente aos pés do suserano.”

Hoje uma frase assim soa tediosa aos nossos vestibulandos, que acham maçante O Guarani. Grosso modo, os escritores atuais preferem frases curtas.  E ainda fragmentam o período para destacar um ou outro de seus componentes: “Respondeu que não voltaria àquele lugar tão cedo. Por nada neste mundo. Nem que lhe implorassem”. 

Segundo Clarice Lispector, pontua-se como se respira. É natural que a ansiedade da vida moderna nos encurte a respiração e nos leve a compor frases rápidas. O leitor, que hoje tem pouco tempo para ler, agradece essa ágil gentileza.

 

 

 

 
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