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Qual o feminino de “rajá”? Que outro coletivo tem a palavra touro, além de “manada”? E o absoluto sintético de “íntegro”, por acaso o leitor sabe? Possivelmente não. Vamos às respostas: o feminino de “rajá” é “râni”. Um dos coletivos de “touro” é “armento”. E o superlativo absoluto sintético de “íntegro” é “integérrimo”.
Quem não soube responder a tais perguntas seria reprovado em qualquer prova de Português elaborada há 40 anos. Naquele tempo estudar a língua era decorar listas de femininos, coletivos, graus do substantivo e do adjetivo, ou coisa semelhante.
Um concurso se tornou famoso por perguntar aos concorrentes qual a fêmea do cupim. E muito cidadão inteligente e honrado deixou de ingressar no serviço público porque nunca ouvira falar em “arará”. Isso mesmo, “arará”. A fêmea do cupim.
Esse modelo de ensino e avaliação da língua, que era um tributo à decoreba, foi bichando (se cupinizando) graças à influência da Lingüística. Uma das maiores contribuições desta ciência para o ensino do Português foi mostrar que o conceito de erro é relativo. Escrever bem nem sempre é escrever certo – verdade que a gente constata quando lê, por exemplo, um Machado de Assis ou uma Clarice Lispector.
O erro deixou de ser apenas infração à norma culta, e passou a ser entendido como um cruzamento indevido de registros. Não devo, por exemplo, misturar o nível formal com o informal. A linguagem com que escrevo a um amigo íntimo não pode ser a mesma com que me dirijo a uma autoridade.
O arejamento trazido pela Lingüística livrou nossos alunos da repetição mecanizada de formas, estruturas e funções gramaticais. Conhecer a língua não é saber coisas que, se ninguém sabe, é porque não interessam a ninguém. É ser capaz de ler com inteligência e utilizar as palavras com clareza, coerência, coesão.
Os atuais exames de Português estão querendo isso de nossos estudantes – e não que eles saibam o feminino de cupim. |