Com lirismo e um ouvido sensível ao registro oral, Rubem Braga modernizou a crônica brasileira

 

       A crônica adquiriu entre nós, a partir de meados do século passado, um nível de excelência linguística que a fez invadir as antologias escolares.  Concorreu para isso a produção de uma série de jornalistas-escritores que aliavam ao conhecimento da grande literatura a sensibilidade para captar o registro oral e reproduzi-lo em textos ricos de lirismo, introspecção e humor. Entre eles estão Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Carlinhos Oliveira e Rubem Braga.

      Sobre a produção desses autores, o crítico Agripino Grieco certa vez afirmou: “São excelentes nadadores de piscinas”. Admitindo-se a pertinência da imagem (e descontando-se o tom preconceituoso que ela tem), Rubem Braga seria o recordista do grupo. Apelidado o “Sabiá da Crônica”, ele soube como ninguém ajustar a linguagem coloquial a suas necessidades expressivas, levando o gênero a territórios nunca antes explorados.   

        A maestria de Rubem Braga decorre de uma forma particular de ver e sentir o mundo. A emoção que seus textos nos provocam vem sobretudo de um “temperamento”, que tanto se comove com o que há de belo na vida quanto se indigna com as injustiças sociais. Ao mesmo tempo que canta a beleza das mulheres, ironiza o egoísmo dos ricos e a estupidez dos que se pretendem donos do mundo.

        Uma de suas mais louvadas características é a capacidade de revelar a beleza que existe em acontecimentos na aparência irrelevantes. O movimento da feira, um banho de mar, uma borboleta que voa entre os prédios de dois ministérios são capazes de deflagrar nele o impulso lírico. É justamente dessas “quinquilharias” que o cronista extrai a matéria de seus melhores textos. Neles procura revelar o que há de imprevisível e grandioso nas coisas simples da vida.

         O cronista vivia na cidade, mas procurava se manter em contato com o campo. Seu amor pelo meio rural levou-o a cultivar uma horta na cobertura onde morava, em Ipanema. Para ele a relação com a terra era uma forma de o homem se aproximar da natureza, cuja força regeneradora constitui um antídoto à dispersão provocada pelo meio urbano.            

     

 

                                                                    O pé de milho

       Os americanos, através do radar, entraram em contato com a Lua, o que não deixa de ser emocionante. Mas o fato mais importante da semana aconteceu com o meu pé de milho. Aconteceu que, no meu quintal, em um monte de terra trazida pelo jardineiro, nasceu alguma coisa que podia ser um pé de capim – mas descobri que era um pé de milho. (…) Quando estava do tamanho de um palmo, veio um amigo e declarou desdenhosamente que aquilo era capim. (…)

         Sou um ignorante, um pobre homem da cidade. Mas eu tinha razão. Ele cresceu, está com dois metros, lança suas folhas além do muro e é um esplêndido pé de milho. Já viu o leitor um pé de milho? Eu nunca tinha visto. Tinha visto centenas de milharais – mas é diferente. (…)

         Detesto comparações surrealistas – mas na lógica de seu crescimento, tal como vi numa noite de luar, o pé de milho parecia um cavalo empinado, de crinas ao vento e em outra madrugada, parecia um galo cantando. (…)

       Meu pé de milho é um belo gesto da terra. Eu não sou mais um medíocre homem que vive atrás de uma chata máquina de escrever: sou um rico lavrador da rua Júlio de Castilhos.

                                                                    Comentários

       A antítese com que se inicia o texto define o papel do cronista. Não lhe interessam os grandes acontecimentos, e sim aquilo que o impressiona. Um pé de milho que irrompe em seu quintal pode ser para ele mais importante do que a corrida do homem ao espaço.

    Na cidade costuma-se desprezar a simplicidade e a aproximação com a natureza. Daí serem pobres os que nela habitam — inclusive o cronista em sua dimensão urbana.   A anteposição do adjetivo no sintagma (“pobre homem”) alude a um tipo de pobreza que não é a material.

       Individualizado, o pé de milho permite que o cronista o perceba com olhos de quem o vê pela primeira vez. Ou seja, propicia uma visão original, que é típica da poesia. O contraste com o milharal evoca, por hipálage, a quantificação e o anonimato que caracterizam o espaço urbano. Assim como num milharal o pé de milho se “despersonaliza”, na cidade o indivíduo não passa de mais uma peça na engrenagem.

        A rejeição inicial às comparações traduz um pudor próprio da estética moderna, que vê com suspeita os arroubos retóricos.  

     Ao comparar o pé de milho com um cavalo empinado e um galo cantando, o cronista o associa à pureza dos bichos. Tal associação remete ao primitivismo da vida rural, que se opõe à mecânica sofisticação do universo urbano.

     A discreta animização valoriza o elemento natural e redime o cronista da sua medíocre vivência na cidade. Como lavrador, ele se torna apto a regar e colher.  Ou seja: aproxima-se concretamente da vida, em vez de apenas representá-la por dever de ofício.

(OBRA ABERTA publicada na revista “Língua Portuguesa” n. 86)

 Chico Viana, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, é professor de português e redação em João Pessoa.     –     www.chicoviana.com