O fino da prosa

Fernando Namora

As chamadas da noite são um pesadelo para qualquer médico.Quanto a mim, acordo imediatamente, sentindo o cérebro e os ossosestonteados por uma brutal e traiçoeira agressão, e, ainda que volte paracasa dentro de breves minutos, não consigo adormecer de novo. É noiteperdida. E todos os médicos poderão confirmar que nem dez por dento das chamadas noturnas se justificam, mesmo descontando asensibilidade alvorotada das famílias, para quem o achaque de noite se acompanha de uma atmosfera de desamparo. (…) Embora se pense o contrário, o povo tanto procura o médico compretextos ridículos como tarda nos casos urgentes e graves; e se aindisposição acomete a horas mortas, não hesita duas vezes; vai logo. Odoente pobre sente que precisa justificar plenamente, perante a família, asua queixa, a sua invalidez, ou a despesa que vai fazer, e daí exageraraté ao inverossímil os seus incômodos. E o povo tem receio de que ovizinho possa insinuar que houve desleixo no tratamento ou na salvação de uma pessoa da casa”. (“Retalhos da vida de um médico”)

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Montaigne

Os homens recorrem por vezes a sutilezas fáceis e vãs para atrairnossa atenção. Assim, os que escrevem poemas inteiros em que osversos começam pela mesma letra. Na antiga literatura grega deparamoscom poemas em forma de ovo, de bola, de asa, de machadinha, obtidosmediante a variação das medidas dos versos (…) Aprovo a atitudedaquele personagem a quem apresentaram um homem que com tamanhahabilidade atirava um grão de alpiste que o fazia passar pelo buraco de uma agulha sem jamais errar o golpe. Tendo pedido ao outro que lhedesse uma recompensa por essa habilidade excepcional, atendeu o solicitado, de maneira prazenteira e justa a meu ver, mandando-lhe entregar-lhe três medidas de alpiste a fim de que pudesse exercer tãonobre arte. É prova irrefutável de fraqueza de nosso julgamento, apaixonarmo-nos pelas coisas só porque são raras e inéditas…(“Ensaios”)

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Joaquim Nabuco

Todos nós temos algum conhecido que pontua as suas frases com esse fatigante ‘entende?’ que os nervos do marquês de Paraná não podiam suportar. O ‘entende?’ do indivíduo que quer forçar o ouvinte a nada perder do que ele diz, é muito diverso da fórmula habitual com que o imbecil marquês de Villamelon exprimia o que lhe faltava força para pensar. Há também pontos, idéias, modos de sentir que o escritor desejaria expressar por um outro ‘Você me entende?’ levantando apenas a ponta do véu ao seu pensamento, aludindo a ele vagamente, sem nada precisar, de fato, sem nada dizer.Cada um de nós é só o raio estético do que há no interior do seu pensamento, e, enquanto não se conhece a natureza desse raio, não se tem ideia do que o homem realmente é.” (“Minha formação”)

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Rubem Braga

Meu caro Vinícius de Moraes: Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: aPrimavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nestaPrimavera – acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depoisveio o Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo umavaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. Sãoviolências primaveris. (“Recado de Primavera”).

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Clarice Lispector

Toda mulher, ao saber que está grávida, leva a mão à garganta:ela sabe que dará à luz um ser que seguirá forçosamente o caminho de Cristo, caindo na sua via muitas vezes sob o peso da cruz. Não hácomo escapar. Cristo seria alegre se não precisasse mostrar ao mundo a dor domundo: como homem era um ser perfeito e por isso teria alegriasperfeitas. (“A descoberta do mundo”)

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Antônio Maria

Nenhuma emoção é mais forte que a de entrar no quarto damulher que dorme. Sentir-lhe o cheiro e o calor, no ar do quarto. Tocar-lhe a pele poderosa. Nela, encontrar intensificação completa.Depois, dormir como na morte, para despertar ao peso dos deveresaflitos a cumprir. Um mistério indecifrável de uma mulher a que sevolta. Só amamos uma mulher quando lhe tememos a pele e ocheiro. Quando a idéia de sabê-la em outro amor nos torna capazesde matá-la ou perdoá-la. Matá-la ou perdoá-la são duas coragensdifíceis. Fica-se, geralmente… Ama-se, angustiadamente, o vestido pendurado da mulherausente. E haverá mais verdade na companhia desse vestido (mortocomo um vestido) que adiante, nos braços de uma nova mulher. (“Notas da chuva”)

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Paulo Mendes Campos

Ser brotinho é viver a tarde inteira, em uma atitudeesquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois queficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passarum dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida delata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria eperambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamenteno instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligentee natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão porcima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudoneste mundo passa depressa e não tem a menor importância. (“Ser brotinho”)

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Fernando Pessoa

A ortografia é um fenômeno da cultura, e portanto um fenômenoespiritual. O Estado nada tem a ver com o espírito. O Estado não temdireito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrevernuma ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me umareligião que não aceito. No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nemainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos portuguêse brasileiro, é aceite. Quis-se impor uma coisa com que o Estado nadatem a um povo que a repugna. (“A língua portuguesa”)

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Irving D. Yalom

O demônio que mais o perseguiu foi a solidão, e Schopenhauer se especializou em construir defesas contra ela. De todas, a maisvaliosa era a certeza de ter, por ser o senhor do próprio destino, escolhido a solidão, em vez de ser escolhido por ela. “Quando maisjovem”, dizia, “minha tendência era ser sociável, mas depois, aospoucos, adquiri um gosto pela solidão, fui ficando pouco sociável e resolvi me dedicar inteiramente a mim pelo resto dessa vida fugaz.” (…) Ele escolheu se isolar, os outros não mereciam sua companhia,sua missão exigia solidão; a vida dos gênios deve ser um“monodrama”, a vida pessoal de um gênio deve servir a umpropósito: facilitar a vida intelectual (portanto, “quanto menos vidapessoal, mais segura e melhor será a vida intelectual”). (“A cura de Schopenhauer”).

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