Autoquestionário

A moda agora é fazer questionários com pessoas famosas, detectando-lhes as preferências artísticas, culturais e, sobretudo, de consumo. Um sinal dos tempos é que, hoje, há pouca curiosidade sobre os livros ou os compositores preferidos pelas celebridades – e muita, sobre o tipo de perfume ou a marca de camisa que elas usam. A verdade é que tais enquetes sempre me provocaram uma ponta de ciúme. Como sou desimportante, nunca um jornalista se lembrou de perguntar o restaurante que freqüento, as mulheres que admiro ou a griffe das minhas cuecas. Azar o meu, que nasci obscuro e assim permaneço. 

Mas basta de ressentimento, chegou o dia da caça. Se ninguém me entrevista, faço eu mesmo o meu perfil – que não será bem um perfil do consumidor. Peço antecipada vênia ao leitor pelo cabotinismo e espero, naturalmente, não desapontá-lo. Vamos então às perguntas:

Definição profissional: Sou mais um professor que escreve do que um escritor que ensina. 

Uma qualidade sua: Ser paciente. A bondade, a sabedoria e a verdade não se dão de repente; são lentas contruções do tempo. 

Um conselho: Seja sincero, sobretudo quando mentir. 

Um verso: “Por delicadeza, perdi a minha vida.”

Uma frase: “Os homens se distinguem pelo que aparentam e se assemelham pelo que escondem.” É do poeta francês Paul Valéry.

Sobre a nova mulher: A pior inimiga da nova mulher é a mulher nova. A mulher nova não está interessada em queimar sutiãs – pelo contrário. Sou a favor de um feminismo sensato, amorável e não-ressentido, que não queira tansformar a mulher numa caricatura do homem. 

Sobre o novo homem: Não existe. O homem está cada vez mais velho. 

Religião: Acredito em todas que tenham boa intenção, pois Deus não discrimina ritos. Mas penso que as religiões funcionam mais como um consolo, um antídoto à sensação humana de desamparo e medo da morte – do que como um veículo de aperfeiçoamento moral. A religião não dispensa a necessidade da ética, que estabelece o respeito e a tolerância ao semelhante – já que é tão difícil, mesmo, amar-nos uns aos outros. Ou, pelo menos, demonstrar isso. 

Personagem do século: O século XX foi, inegavelmente, o século de Sigmund Freud. Ele se dizia ateu, mas como se revelou cristão ao reconhecer que o amor ao próximo é nossa condição de equilíbrio. Segundo Freud, precisamos amar para não adoecer – o que é uma justificativa psíquica e orgânica para o “Amai-vos uns aos outros.”, de Jesus Cristo.

Bebida: De preferência, água da quartinha. Ou, na falta deste recipiente nostálgico e sereno, água do filtro. Se eu pudesse, seria abstêmio; é uma das melhores coisas que se pode fazer ao corpo. Cada vez bebo menos, e não por escrúpulo ou moralismo. É que a bebida é incompatível com certas práticas de que gosto muito, como nadar, ler e andar de bicicleta. E depois tem a ressaca, que é um desmonte orgânico em troca de um efêmero entorpecimento mental. Melhor é se embriagar de endorfina – o vinho do suor -, que não custa caro nem traz dor de cabeça. 

Diversões preferidas: Ler, ouvir música clássica e assistir ao futebol pela televisão – mas só pela televisão. A ida ao campo não me permitiria ver o gol várias vezes, e por diversos ângulos. 

Um enigma: De onde viemos, para onde vamos e o que Fernando Henrique Cardoso quer mesmo fazer com a classe média. 

Sobre o sexo: É melhor na maturidade, quando já se desfizeram todos os fantasmas e se perderam todos os receios. Depois dos quarenta, ficamos mais perto de desvendar o enigma que intrigou Freud: “O que quer uma mulher?” O que ela quer tem pouco a ver com as fantasias com que fomos acostumados a vê-la – por inépcia de macho ou enfermiça deformação de romântico.