|
No próximo dia 20, Augusto dos Anjos completaria 126 anos. Relembro aqui, para homenageá-lo, uma de suas mais populares composições:
Versos íntimos
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão — esta pantera — Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!
“Versos íntimos” é um bom resumo da poesia do paraibano. Trata-se de um soneto, espécie na qual ele é mestre. O texto se inicia com uma pergunta a um suposto interlocutor (eu, você, o homem de modo geral), e nesse recurso de encenar um diálogo revela-se uma das principais características do poeta: a fuga à abstração e o empenho em mostrar de forma quanto possível concreta as perplexidades e os conflitos que lhe angustiam a alma.
Uma coisa seria afirmar, parnasianamente, que o ser humano é ingrato. Outra é dizer isso a alguém que, desencantado e solitário, assiste ao enterro do seu último ideal. Neste caso apela-se não só ao intelecto, como também aos afetos e as emoções. O efeito é maior para o leitor, que tende a se identificar mais facilmente com uma pessoa do que com uma ideia.
O fatalismo da segunda estrofe revela a influência de um filósofo caro ao paraibano -- Arthur Schopenhauer. Acostumar-se à lama é reconhecer nosso mesquinho destino e aceitar o jogo cego da natureza, em que ganha o mais forte. É impossível escapar de ser fera num mundo em que só a pantera da Ingratidão se mantém solidária com o ser humano.
Vêm a seguir os tercetos, nos quais o tom sentencioso se mistura ao vocabulário de mau gosto. Observo uma coisa curiosa na leitura desses versos: a referência escatológica parece impedir que se assimile o conceito expresso numa frase como “O beijo é a véspera do escarro”. Quer o poeta dizer, obviamente, que quem nos afaga hoje vai nos desprezar amanhã. Muitos parecem não ver aí a metalepse, e traduzem “escarro” em sua acepção literal.
Mantida essa literalidade, o último verso do poema reveste-se de um tom agressivo e mesmo grosseiro. O eu lírico responderia com um cuspe ressentido e afrontoso a quem o quisesse beijar. Essa é uma interpretação pobre, que diminui o que o soneto tem de mais forte: a veiculação conflituosa, dramática, de um juízo sobre o ser humano.
Augusto intensifica por meio desse dramatismo o apelo a que não nos iludamos com a falsa solidariedade dos outros. Como é inevitável que um dia nos abandonem, tratemos de abandoná-los primeiro. |