ESCRITOS AUGUSTO DOS ANJOS
Relembrando Augusto
09/05/2010
 

         No próximo dia 20, Augusto dos Anjos completaria 126 anos. Relembro aqui, para homenageá-lo, uma de suas mais populares composições:

                                   Versos íntimos

 

                    Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
                    Enterro de tua última quimera.
                    Somente a Ingratidão — esta pantera —
                    Foi tua companheira inseparável!

                    Acostuma-te à lama que te espera!
                    O Homem, que, nesta terra miserável,
                    Moraentre feras, sente inevitável
                    Necessidade de também ser fera.

                    Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
                    O beijoamigo, é a véspera do escarro,
                    A mão que afaga é a mesma que apedreja.

                    Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
                    Apedreja essa mão vil que te afaga,
                    Escarra nessa boca que te beija!

 

          “Versos íntimos” é um bom resumo da poesia do paraibano. Trata-se de um soneto, espécie na qual ele é mestre. O texto se inicia com uma pergunta a um suposto interlocutor (eu, você, o homem de modo geral), e nesse recurso de encenar um diálogo revela-se uma das principais características do poeta: a fuga à abstração e o empenho em mostrar de forma quanto possível concreta as perplexidades e os conflitos que lhe angustiam a alma.

         Uma coisa seria afirmar, parnasianamente, que o ser humano é ingrato. Outra é dizer isso a alguém que, desencantado e solitário, assiste ao enterro do seu último ideal. Neste caso apela-se não só ao intelecto, como também aos afetos e as emoções. O efeito é maior para o leitor, que tende a se identificar mais facilmente com uma pessoa do que com uma ideia.

         O fatalismo da segunda estrofe revela a influência de um filósofo caro ao paraibano -- Arthur Schopenhauer.  Acostumar-se à lama é reconhecer nosso mesquinho destino e aceitar o jogo cego da natureza, em que ganha o mais forte. É impossível escapar de ser fera num mundo em que só a pantera da Ingratidão se mantém solidária com o ser humano.

         Vêm a seguir os tercetos, nos quais o tom sentencioso se mistura ao vocabulário de mau gosto. Observo uma coisa curiosa na leitura desses versos: a referência escatológica parece impedir que se assimile o conceito expresso numa frase como “O beijo é a véspera do escarro”.  Quer o poeta dizer, obviamente, que quem nos afaga hoje vai nos desprezar amanhã. Muitos parecem não ver aí a metalepse, e traduzem “escarro” em sua acepção literal.

         Mantida essa literalidade, o último verso do poema reveste-se de um tom agressivo e mesmo grosseiro. O eu lírico responderia com um cuspe ressentido e afrontoso a quem o quisesse beijar. Essa é uma interpretação pobre, que diminui o que o soneto tem de mais forte: a veiculação conflituosa, dramática, de um juízo sobre o ser humano.

         Augusto intensifica por meio desse dramatismo o apelo a que não nos iludamos com a falsa solidariedade dos outros. Como é inevitável que um dia nos abandonem, tratemos de abandoná-los primeiro.

 

 

 

 
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