ESCRITOS AUGUSTO DOS ANJOS
A “ilusória morbidez” de Augusto
30/03/2007
 

E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
Em: Monólogo de uma Sombra)

Ao receber o livro que ora devo apresentar, confesso que o olhei com desconfiança. E pensei comigo: é mais um desses trabalhos que procuram arrolar sintomas psicopatológicos de Augusto dos Anjos, com o propósito de caracterizá-lo como esquizofrênico, paranóico, neurótico obsessivo ou coisa semelhante. Lembrei-me de outros títulos com preocupação idêntica, como os trabalhos de Licínio dos Santos, Arthur Ramos, João Sabóia Ribeiro e A L. Nobre de Melo, cuja serventia para a compreensão do poeta, enquanto artista do verso, é praticamente nenhuma. Lembrei-me também das palavras com que Alexei Bueno, em nota introdutória à Fortuna Crítica de Augusto dos Anjos, publicada na Obra Completa pela Editora Aguilar, se refere ao que chama de “teses pseudopsiquiátricas e pseudomédicas” acerca do poeta; afirma então Alexei que, “ressalvado o saboroso cunho de época que (dessas teses) emana, julgamos certo classificá-las como patrimônio do anedotário literário, indigno de maiores comentários.”
E mais desconfiado fiquei ao ler a Nota do Autor, na qual Luiz Carlos Albuquerque afirma que a “nascente” do seu livro “está num estudo restrito ao âmbito da Psiquiatria, intitulado ‘A loucura principal’...” (p. 9) ; e ao ler, também, o prefácio do Prof. Othon Bastos, que define o Eu, singularíssima pessoa como “um estudo correto e bem fundamentado de análise patográfica da obra” de Augusto dos Anjos (p. 14).
E por que essa desconfiança quanto ao fato de o presente livro se constituir em mais um estudo de natureza psicológica, ou psiquiátrica, acerca do nosso poeta? Justamente pelos equívocos de ordem crítica e interpretativa em que, grosso modo, tem incorrido esse tipo de trabalho. O primeiro desses equívocos é o de confundir a obra com o seu autor, concentrando o foco da abordagem no homem e desprezando o principal, ou seja, o que ele efetivamente produziu. O segundo equívoco, intimamente ligado ao primeiro, é o de conceber a obra como um inventário de sintomas, uma crua relação nosográfica feita pelo autor/poeta com o propósito de confissão ou de alívio.
Procedendo assim, o crítico ou intérprete negligencia os elementos de ordem estético-expressiva, quando na verdade foi por eles que o escritor, através de seus poemas, fez-se objeto de atenção e de afeição. É o poeta que nos enleia e conquista; ele é que nós admiramos por (ou em) seus poemas. No entanto, por uma curiosa inversão de prioridades, a chamada crítica psicológica ou psiquiátrica – que não se deve confundir com a crítica psicanalítica, que não se faz sem conceder a necessária prioridade aos elementos da linguagem – prefere se deter não no poema, não obra, mas nos meandros psíquicos de quem a produziu. Como se, procedendo ao diagnóstico das perturbações mentais do homem, ficasse mais fácil compreender-lhe a produção artística.
Penso que tais considerações justificam a desconfiança com que me debrucei sobre o livro de Luiz Carlos Albuquerque. Tratar-se-ia, esta minha reação inicial, de má vontade ou preconceito contra os estudos psiquiátricos ou psicológicos feitos sobre Augusto dos Anjos? Afirmo que não. Todos têm o direito de biografar Augusto ou qualquer outro escritor, bem como o de lhes investigar o psiquismo com fins diagnósticos ou, mesmo, meramente descritivos. O resultado de um tal estudo pode ser extremamente curioso – e pode até subsidiar o crítico literário quanto a aspectos idiossincráticos, intrigantes da obra. Augusto dos Anjos, todos sabemos, refere muito da sua vivência, da sua experiência imediata e circundante, nos poemas que compôs. Há neles reflexos de acontecimentos, há delírios e temores, há obsessões e expectativas com que nos defrontamos em outros escritos do poeta – sobretudo nas cartas –, o que vem atestar a interpenetração do experimentado, do efetivamente vivido pelo homem, no seu universo poemático. Conforme assinala Raimundo Magalhães Júnior, “as poesias de Augusto dos Anjos estão cheias de anotações de caráter pessoal que constituem uma espécie de autobiografia psicológica.”
O direito a esse tipo de estudo, obviamente, todos o têm. O que não se pode é ignorar que o poema, a obra de arte, não se constitui em inventário literal, registro puramente informativo do que o poeta viveu. O poema é “mentira”, no sentido de que é ficção; sendo assim, ele transfigura e faz transcender o sentido imediato de fatos, sentimentos e impressões, integrando-os numa ordem nova que se articula, agora, sob a primazia do expressivo e do estético. O que se observa é que a chamada crítica psicológica ou psiquiátrica – pelo menos a que tem se ocupado de Augusto dos Anjos – tem ignorado essa verdade. E, quando não busca explicar o poeta, o artista literário, a partir de elementos da sua biografia, procura traduzi-lo – o que me parece mais grave, além de ingênuo – através das hipotéticas rotulações que o eu-lírico, entre a autoperquirição e o delírio, costuma aplicar a si mesmo.
Augusto dos Anjos enumera, em sua obra, uma série de estados mórbidos ligados tanto ao seu corpo quanto à sua mente. Em certa passagem de “Tristezas de um quarto minguante”, por exemplo, ele se compara a um “degenerado psicopata”; em um passo de “As cismas do Destino”, ele se refere à “alta alucinação das (suas) cismas”, e assim por diante. O Eu e outras poesias, com efeito, é um repositório de doenças atribuídas não somente ao eu-lírico como também aos personagens contra os quais ele investe o seu juízo moral, marcado pela culpa do pecado primeiro, isto é, pela falta que a todos nos incrimina. Esses personagens estão resumidos, paradigmaticamente, nas figuras do sátiro e da meretriz, cujos corpos são objeto de patológicas deteriorações. No entanto, se não se entende que a doença no vocabulário do poeta é antes uma metáfora orgânica do vício – ou seja, da culpa –, incorre-se em grave distorção exegética; termina-se alienando, por excesso de literalidade (e qual a literalidade, em poesia, que não é excessiva?), o universo simbólico do autor.
Ao se afirmar um “degenerado psicopata”; ao confessar o seu histerismo em “Poema Negro”, o poeta não está interessado em se autodefinir ou em se autoconceituar. Sem qualquer preocupação com o eventual rigor dessas denominações, ele está perpetrando imagens, ou seja, expressando-se musical e metaforicamente com vistas, por um lado, à tradução complexa e ambígua do seu estado emocional – e, por outro, à configuração, mediante esses e outros termos de idêntico teor expressivo, de um organismo autônomo e solidário – o poema – capaz de suscitar no leitor beleza e emoção.
Acreditar, por seus poemas, que o poeta é um psicopata degenerado; ou que lhe vêm à imaginação “sonhos dementes”, conforme ele refere no citado “Tristezas de um quarto minguante”, é o mesmo que aceitar que ele, por exemplo, “(comeu seus) olhos crus no cemitério”, segundo também afirma em “Solilóquio de um visionário”. Ou que, para ficar ainda no âmbito da casa dos mortos, ele se confessa necrófago ao afirmar, após hesitações que lhe “irritaram a alma”, ter devorado o “bolo frio” (isto é: a carne humana)/ Feito das podridões da Natureza” – segundo refere em “Os Doentes”. Há certo folclore sobre a necrofilia de Augusto de Anjos, mas não se pode esperar que esse tipo de juízo constitua uma apreciação séria sobre o homem ou, menos ainda, sobre o poeta.
Para se ter uma idéia da distorção a que pode levar esse tipo de crítica, que lê as imagens poéticas ao pé da letra – como se fossem registros vivenciais, – observe-se o que A. L. Nobre de Melo afirma sobre Augusto dos Anjos. Segundo esse estudioso, o nosso poeta “realiza bem o tipo perfeito do esquizóide, permanentemente dissociado da realidade exterior...”; mas foi também vitimado pela neurose – o que não deixa de ser desconcertante. Neurótico ou psicótico? Ao que se sabe, neurose e psicose decorrem de processos distintos e levam a caminhos diferentes. Na neurose, o eu considera a existência da realidade e recalca as exigências pulsionais; na psicose, ele rompe com a realidade e fica sob o domínio do id. Além do mais, como pode alguém, mesmo sendo um Augusto dos Anjos, encarnar “o tipo perfeito” – ou seja, uma espécie de paradigma – da esquizoidia? Sabemos quão vago e incerto, mesmo para os especialistas, é o referencial que caracteriza ou define as doenças mentais.
O equívoco básico de A. L.Nobre de Melo (e nesse tipo de equívoco incorre a quase totalidade da chamada crítica psicológica ou psiquiátrica que tem estudado Augusto dos Anjos) é ler as imagens do poeta como se fossem registros nosográficos idôneos, confissões verdadeiras e passíveis de crença. Nessa perspectiva, por exemplo, as expressivas, intrigantes e surreais imagens que recheiam o poema “Tristezas de um quarto minguante” não passariam de sintomas; elas constituiriam indícios de “estados confusionais leves e efêmeros, por ofuscação parcial do conhecimento” . É perceptível o absurdo de uma tal avaliação; orientado por um racionalismo de base estritamente clínica, o estudioso menospreza o que o poeta tem de criativo e transcendente. As imagens de delírio, as demandas do inconsciente, ao invés de refletir o poder prospectivo do poeta, que vê mais do que o comum dos homens, constituem-se em indícios de fragilidade e confusão psicológica. Por essa ótica, as metáforas de Augusto deixariam de ser desvios lingüísticos, promotores de efeito poético, e constituiriam indícios de desvio mental.
Pois bem, foi sugestionado pelas leituras que fiz desse tipo de crítica, que recebi o Eu, singularíssima pessoa. E não poderia, diante do que acabo de expor, encará-lo sem uma prévia e robusta desconfiança. Tal sentimento, afirmo de antemão, foi-se desfazendo à proporção que eu lia o livro do Dr. Luiz Carlos Albuquerque, o qual me surpreendeu agradavelmente por diversas razões.
Antes de ser o livro de um psiquiatra, a obra que ora tenho a satisfação de apresentar é, fundamentalmente, o livro de alguém sensível e afeito, como receptor e como produtor, à especificidade do fenômeno literário. Se Luiz Carlos Albuquerque se propõe, conforme já observamos, a proceder a um levantamento de estados ou sintomas psíquicos em Augusto dos Anjos, ele no entanto não permite que, em função desse propósito original, se ofusque ou abafe a grandeza de Augusto enquanto poeta, criador literário. Daí o método que escolheu para abordá-lo, alternando o discurso científico e seu jargão técnico-rotulatório, que na verdade aparece pouco, com abundantes transcrições poemáticas. De entremeio com isso o autor insere, sob a designação de Depoimentos, textos leves à maneira de crônicas em que se referem episódios, depoimentos, fatos do cotidiano. Através deles se evidencia, de forma viva e dinâmica, a penetração da obra de Augusto dos Anjos no seio do povo. O livro que ora apresento, sente-se do começo ao fim, é sobretudo um testemunho de admiração e de amor pelo poeta.
Luiz Carlos Albuquerque é modesto em seus propósitos. Na página 94 de Eu, singularíssima pessoa, afirma: “Esse trabalho em que me empenhei foi realizado sem maiores pretensões, sem a veleidade de fazer uma revisão crítica, que deve caber aos especialistas”. Numa prova, contudo, de que sensibilidade ao fato literário e discernimento crítico não são apanágio de especialistas, ele nos surpreende com referências corretas e argutas sobre alguns dos autores que influenciaram Augusto dos Anjos – entre eles, Guerra Junqueiro, Baudelaire, Cesário Verde. A propósito das relações entre Augusto e Cesário, por exemplo, ele refere as opções temáticas que teriam importantes reflexos na linguagem dos dois, enquanto antecipadores da modernidade poética luso-brasileira: “Através de Cesário a poesia escapou dos temas consagrados – amor, devaneio, sonhos – e envolveu os temas prosaicos da vida, os temas comuns do cotidiano” (p. 50). Os trechos literários mediante os quais confronta aqueles autores com o paraibano são sempre escolhidos com adequação, e servem tanto a confirmar semelhanças quanto – uma das preocupações do autor – a sublinhar diferenças.
Há, em Eu, singularíssima pessoa, um paradoxo que, a meu ver, constitui-se no seu melhor atributo. O autor se propõe a pesquisar indícios de psicopatologia em Augusto dos Anjos – mas termina, felizmente, não levando a cabo esse propósito. E não porque lhe faltem luzes no domínio em que é especialista. Ocorre que, ante a complexidade dos procedimentos criativos do poeta, o autor prefere, judiciosamente, optar pela descrição genérica, multifacetada, sem qualquer dogmatismo clínico ou diagnóstico.
Em certa passagem do livro, ele reconhece que Augusto é um “quebra-cabeça” (p. 57); em outra, afirma com honestidade: “Lidamos com indicativos imprecisos (...), que não se configuram suficientes para uma classificação diagnóstica, definitiva.” (p. 88.). E critica, logo a seguir, as esdrúxulas conclusões do já citado A. L. Nobre de Melo, Por fim, no último Depoimento do livro, o autor reconhece que a obra de Augusto dos Anjos “tem vida própria, independentemente de ter sido ou não o poeta vítima de transtornos mentais.” (p. 91). Com isto, implicitamente afirma reconhecer no poeta a autonomia e o domínio do literário, desembaraçando-o de presumíveis condicionamentos de natureza psicopatológica. Augusto não foi o poeta que foi por ser neurótico, melancólico, paranóico, esquizofrênico ou coisa semelhante, mas por ser, fundamentalmente, um grande artista.
Ao reconhecer que os vários distúrbios descritos em Eu e outras poesias estão ali “às vezes servindo para comparações, outras vezes enfatizando, de modo intencionalmente chocante, certas situações ou servindo a uma simbologia particular” (p. 19), o autor demonstra perceber o essencial da obra do poeta. É próprio da melancolia, conforme nos ensina a psicanálise, traduzir nas mazelas do corpo a “má consciência” decorrente dos conflitos de ordem moral. Para isto, o tema da doença e seus correlatos – magreza, morte, putrefação – é particularmente adequado. Na visão culpada do melancólico, corpo doente é corpo punido; a agressividade contra o corpo, fonte e instrumento natural do prazer, constitui um imperativo de seu superego. Daí a representação simbólica da doença ser comum na lírica do paraibano, a ponto de um Wilson Martins afirmar, por exemplo, que “... se o indivíduo Augusto dos Anjos não foi tuberculoso, o poeta Augusto dos Anjos inquestionavelmente o foi” .
Observei acima que Eu, singularíssima pessoa é um livro de alguém afeito ao uso da palavra escrita. Não custa pinçar trechos que, pelo desembaraço, pela singularidade e, às vezes, pela elegância formal, confirmam a habilidade do autor no manuseio das palavras. Por exemplo: aos criticar os que insistem em afirmar a tuberculose do poeta, por ela justificando certos temas e imagens recorrentes em sua poesia, Luiz Carlos Albuquerque escreve que tais pessoa procedem “como se o talento poético, a sensibilidade, a capacidade de fazer versos tivessem uma relação bacilar – com o bacilo de Kock” (p. 80). Comentando o desolado cenário dos poemas de Augusto, prenhe de remorso e de tristeza, ele observa que tudo isso compõe “uma calçada de pedras sombrias, arestosas e cortantes, por onde não se pode andar sem chorar ou sangrar” (p. 20). A propósito do soneto dedicado pelo poeta ao filho morto ainda no ventre da mãe, o nosso autor observa que “esse aborto (...) não ficou sem geração” (p. 29). E transcreve a seguir o referido poema, rebento sublimado que vingou para compensar o outro.
A propósito dos hábitos retirados do poeta, que era infenso aos compromissos sociais, Luiz Carlos Albuquerque opina: “Os seus versos de amaríssimo sabor não combinavam com os canapés da mundanidade” (p. 59). E falando a seguir, não de Augusto mas do bailarino Nijinski, surpreende-nos com estas palavras, que se rematam numa imagem sensível – a dança como alada representação do efêmero: “Nijinski encantou o mundo com sua arte, imortalizando-a com uma obra tão efêmera, toda ela traçada no ar...” (p. 75). Na página 96, num saboroso jogo fônico, chama o ex-presidente Fernando Collor de “o dândi da Dinda”.
Por tudo isso, Eu, singularíssima pessoa é um livro que se lê com prazer e proveito. Se não inova em termos crítico-interpretativos, traz oportunos acréscimos sobre as influências e os receptores da obra de Augusto dos Anjos. O autor é um curioso que tem o faro do pesquisador, a inquietude do estudioso e o ouvido do jornalista, sempre atento ao que, em bares, consultórios e outros recantos públicos, se diz sobre a obra do paraibano. O resultado de suas pesquisas, por essa mescla de estudo e abertura à reação do povo, é pintar-nos a imagem de um Augusto atual e vibrante, ou seja, tal como o povo há décadas o vem preservando.
Em certa passagem do livro, comentando a pergunta de um primo, o autor informa que ao escrevê-lo estava empenhado em “autopsiar Augusto” (p. 71). Que o autor me perdoe, mas esse é um juízo errôneo. Faz-se a autópsia de quem já morreu e o seu trabalho, pelo que testemunha da permanência e da vitalidade do poeta, é antes uma jubilosa certidão de (re)nascimento.

Bibliografia

ANJOS, Augusto dos. Obra completa. Organização, fixação do texto e notas por Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1944.

ALBUQUERQUE, Luiz Carlos. Eu, singularíssima pessoa. Recife: M. Inojosa, 1993.

MAGALHÃES JÚNIOR, R. Poesia e vida de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília/INL, l978.

MARTINS, Wilson. Augusto dos Anjos. In: BRAYNER, Sônia & COUTINHO, Afrânio. Augusto dos Anjos; textos críticos. Brasília: INL, 1973.

 

 

 

 
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